A chegada do circo pela manhã

Foi um evento importante na cidade, como o desfile do 7 de setembro, que atraía todo mundo. Era uma cidade gaúcha, pequena, rural, sem atrações artísticas ou eventos populares, à exceção do rodeio, mas ele acontecia apenas uma vez ao ano e não saciava o suficiente para suportar os meses restantes.

O primeiro espetáculo foi ver o pessoal montar o picadeiro, pregar as estacas que seguravam a lona, limpar o trailer semi-aberto que venderia pipoca, maçã do amor e chocolates que gerariam o dinheiro de fato, já que o ingresso era barato demais para isso. A população estava excitada. Fazia tempos que um circo não passava pela cidade, quase sempre desprezada pelas grandes atrações.

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A mulher do palhaço sofreu um acidente. Estava ajudando a arrumar a corda do equilibrista quando caiu numa pilha de barras de ferro que seriam montadas em jaula para o Porco Maluco. Foi uma longa queda. Fraturou a coluna, quebrou a parte de trás do crânio. Morreu na hora, foi enterrada no cemitério da cidade mesmo, ao lado do túmulo do antigo prefeito. A epígrafe: “amada esposa, filha e amiga”.

Três dias depois foi a primeira apresentação. Os habitantes acharam ótimo. Já haviam se esquecido da tragédia. Acharam o palhaço engraçado. Alguns dos trabalhadores do circo comentaram sem que ninguém ouvisse: faz muito tempo que ele não sorri tanto.

Lucas Zanella

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