A Porta do Inferno

As terças-feiras eram dias de limpeza.

– “Cortes no orçamento” – citou Beti com um resmungo. – Aquele velho quer mesmo é não gastar dinheiro. Você acha que ele se importa com esse inferno?

– Isso não entra em questão. O importante é que nós nos importamos. Entendido, enfermeira Couto?

Ela franziu a testa, mas concordou.

– Se você diz, Laura, se você diz. Mas quando quiser, aposto que vai fazer bem tirar esses óculos para ver melhor essa espelunca. As portas dos quartos estão enferrujadas. Ah, e não para por aí, perceba o que está implícito nisso: as portas dos quartos são de metal. Ferro, aço ou o que seja. Até parece que os coitadinhos estão na cadeia.

– Se você não se lembra, Beti, nessa ala do hospício fica o pessoal que está na cadeia.

– Em todos os casos, o ponto do assunto é que o dono é um escarro – falando isso, ela puxou catarro na garganta e o cuspiu no chão à frente, o que elas ainda limpariam. – Isso o que ele é.

– Comporte-se, Beatriz Couto. Não sei como ainda não foi demitida. Uma vez eu pensava que as formadas em Enfermagem pela Universidade tivessem um pouco mais de sutileza.

– Ah, é? Quando foi que abandonou seu preconceito?

– Logo no primeiro dia em que te conheci – eu disse, fazendo a outra rir. Acompanhei-a com uma risada singela.

Os rodos corriam pelo largo corredor com as portas para os quartos. Estavam todos muito silenciosos, o que fazia com que nossas vozes escoassem até o fim, batessem na parede e ricocheteassem de volta. Beti continuou a insistir no assunto.

– Mas você precisa concordar que ele deveria ao menos nos pagar um pouco mais. Quando entrei aqui, pensei que seria um tempo curto de adaptação com o mundo do trabalho, nunca pensei que teria gasto tanto dinheiro em estudo para virar parte faxineira.

– Estava pensando virar médica com um diploma em Enfermagem, Beatriz?

– Ora, claro que não. Mas… Enfim! – ela cessou o assunto.

As portas naquele corredor eram diferentes das portas dos outros andares. Enquanto nos outros elas também possuíam números, neste aqui elas apenas possuíam os nomes dos seus ocupantes. Eram simples fichas escritas à mão mesmo e postas num espaço próprio para elas. As portas possuíam portinholas, e quando abertas mostravam o quarto do paciente através de barras. Era tudo muito seguro, apesar de muito primitivo. Não havia câmeras de segurança, apenas um segurança em carne e osso no primeiro andar, mas ele era mais rápido que um guepardo.

– Nós ficamos com o pior andar – Beti continuou a reclamar. – Esse era o mais sujo.

Eu apenas concordei, não queria iniciar outra discussão que levaria a lugar algum. No máximo, o que Beti faria seria um protesto silencioso, e todos sabemos de quê essas coisas adiantam.

Parei e me escorei na parede do fim do corredor. Beti fez o mesmo, enfiando antes o esfregão no balde de água como se para demonstrar oficialmente que a tarefa estava cumprida.

Daquele lugar, podíamos ver apenas algumas das portas, e destas apenas algumas nos permitiam ver as fichas com os nomes. Enquanto Beti certamente apenas recuperava o fôlego e se preparava para descer os andares até o térreo, eu observei.

WILDE, Higor. VON MILER, Catarina. VITORINO, Antônio.

Enquanto este último era o mais próximo da direita, o mais próximo da esquerda dizia “CANEPELLE, João”. Era o único, em todo o prédio, que possuía mais uma coisa além do nome (e do número, para os outros), era apenas um adesivo, mas um muito intrigante.

Como se para checar que ele era real, passei meu dedo indicador e minha unha pelo adesivo na porta, como se fosse tentar arrancá-lo, mas não o fiz. Eu mais parecia o acariciar, se algo. Dizia ele: “Apenas pessoal autorizado.”

Beti despertou-me do transe ao bater palmas uma única vez, então esfregou as mãos.

– Vamos lá, então! O elevador não está funcionando e são seis andares de escadas.

– Se não pode expulsar o diabo da sua casa, enfrente-o.

– Ou melhor ainda: se não pode expulsar o diabo da sua casa, mude-se!

Chegando no térreo e pondo o balde e os esfregões no armário de limpeza, percebemos que fomos as primeiras a terminarem. O recepcionista estava no telefone e sequer nos notou chegar. Entramos na sala envidraçada que era nosso lugar de descanso e sentamos nas cadeiras junto à mesa. Alguém já havia preparado um café, então nos servimos.

Um instante de silêncio se passou enquanto assoprávamos o líquido quente e então o bebíamos em goles controlados. Era café preto, puro, mas com a dose adequada de açúcar ele se tornou maravilhoso. Beti não fez questão de enchê-lo de açúcar.

– Sei que vai me dizer que fofocar é errado e que ouvir conversa alheia é mais errado ainda, mas…

– Vamos, fale, sei que está tremendo para contar – eu disse, adicionando ainda mais um pouco de açúcar.

– E estou mesmo – Beti disse, como se fosse algo do qual tem orgulho. – Ouvi o velho falar com um dos caras da delegacia.

– Sobre um paciente?

– O que? Ah, não – ela espantou o chute como se fosse uma mosca. – Sobre o Kevin.

Demorei talvez tempo demais para entender, mas logo percebi, com a ajuda de um aceno da cabeça dela, que este era o primeiro nome do recepcionista.

Beti continuou:

– Querem trocá-lo. Quero dizer, demitir ele e contratar alguma mulher. Você sabe que mulheres dão muito mais lucro.

– Talvez, se ela tiver dois pés de coelho em vez de humanos.

– Estou falando sério, garota. Demiti-lo porque é homem, que coisa, não. Mas é bem verdade que já vi nos olhos de muita gente que só não admitiram alguém aqui por causa dele, é forte demais, masculino demais. Até dá a impressão de que abusamos dos nossos pacientes.

Meu olhar era de ceticismo, e Beti percebeu.

– Uhum – ela alongou a afirmação. – Engraçado, muito engraçado. E pensar que quando eu ainda era uma adolescente eu aguardava atenta pelo dia em que finalmente me fosse poder entrar numa Universidade. Os tempos mudam. O feitiço virou contra o maldito do feiticeiro – ela ergueu seu copo com café puro –, e que continue assim por muito mais tempo.

Apenas por educação, bati o meu copo no dela para brindar. Meu rosto talvez trouxesse um breve sorriso. Pelo canto do olho, vi o recepcionista desligar o telefone e então espantar o cansaço com uma espreguiçada. Cada músculo dos seus braços e do seu pescoço saltaram como veias, ficando ainda mais visíveis por conta da luz do pôr do sol que entrava pelos vidros.

– Está na hora de levarmos o jantar – anunciei já me levantando.

O sol ressuscitou mais cedo do que de costume. Como sempre deixava a cortina do meu quarto aberta, foi ele o que me despertou às exatas seis horas da manhã. Afastei a coberta e deixei que meus pés descalços sentissem o chão frio de madeira. Estiquei meu braço até o rádio-relógio e desliguei a função de despertador.

O quarto já estava muito bem iluminado. Não tive dificuldades em caminhar até o banheiro e banhar-me. Quando voltei, tendo a toalha enrolada na minha cabeça para abrigar o cabelo úmido, o brilho já estava mais penetrante. Vesti-me e, por cima da roupa, pus o uniforme do Santo Caim, ainda tão branco como quando o recebi.

Passava com o carrinho de remédios pelo andar que me foi dado. O som das rodas velhas batendo no metal enferrujado pulava pelo ar e dava, afinal, um pouco de vida para o corredor morto. Limpo, sim, mas morto. Um caixão envernizado, podia-se dizer.

Cada parte da bandeja superior do carrinho tinha um lugar para ir. Eu abria a portinhola da porta e deixava o comprimido ali, descansando. Quando era necessário, chamava pelo paciente, que ia até ali e então o tomava. Aqueles que eram os mais conhecidos pelos motivos errados eu falava para abrirem a boca a fim inspecionar se realmente o remédio foi tomado. Finalizado, fechava-se a portinhola e o paciente voltava a ser confinado ao seu retiro escuro.

A distância entre as barras na portinhola era grande o suficiente para que também fosse possível espremer para o local de descanso um copinho de água para aqueles que tinham dificuldade em engolir. Regra geral, esses eram os que eu nunca inspecionava. Como todo lugar, mesmo num hospício havia os que queriam se ajudar e os que apenas fantasiavam em escapar.

Quando se tratava dos pacientes que alegaram insanidade mental para a corte, estes careciam um procedimento um pouco mais cauteloso. As próprias barras por trás das portinholas, por exemplo, eram mais e menos esparsas. O modo como lhes eram entregues os remédios era assim: logo abaixo da porta, uma outra portinhola, minúscula, ela era deslizada e então o comprimido rolava para dentro. A portinhola era deslizada e trancada, e o paciente não era checado se tomara ou não seu remédio. Nunca era.

Chegando no fim do corredor, o carrinho continuava a fazer seu barulho, embora agora estivesse um tanto quanto mais leve. O único paciente que não recebera seus remédios fora João Canepelle, que, é bem verdade, eu nunca vira tomar algo ou receber visitas médicas. O adesivo na porta, “apenas pessoal autorizado”, queria dizer que apenas os psiquiatras instruídos pelo governo poderiam ali adentrar. A trava da porta estava tão enferrujada que se notava, ali psiquiatra algum jamais entrara.

Tomada pela curiosidade, pus o carrinho de lado e aproximei-me do metal gelado. Encostei minha orelha e prendi a respiração. Nada ouvia, sequer um ronco desatento. Houve tempos que pensei que aquele quarto estava desabitado. Ou, se algum dia este João o habitara, certamente agora já morrera. Sem remédios e sem comida, logo definharia. Sim, ele também era o único que não recebia comida nos horários há muito estipulados.

João Canepelle. Um nome tão interessante, tão bonito, até. Minha curiosidade se expandiu ao ponto de querer ver o rosto que tinha esse nome. Se estivesse morto, tudo bem; se estivesse vivo, já consumido pela loucura que alegara, pouco me notaria. Sequer perceberia a porta aberta, certamente.

Não era preciso uma chave, apenas precisei levantar a trava, embora seu estado tivesse exigido de mim grande força. O som de estalo que se deu ao destravar da porta foi tão alto que poderia ter percorrido todo o prédio. Fiquei parada por minutos a fio, a mão ainda na trava, no flagra, mas ninguém apareceu. Talvez fosse um golpe de sorte, e eu o iria aproveitar.

A luz do corredor adentrou junto de mim o quarto de João. Era um lugarzinho sem janelas e, portanto, embora fosse dia e o sol lá fora brilhasse, precisaria deixar a porta aberta para que pudesse ver algo. O primeiro lugar para o qual olhei, certamente, foi a cama, na qual esperava encontrar o corpo no seu sono eterno. Ela estava, porém, não apenas vazia como também arrumada.

O cheiro de mofo era tão grande que me dava a impressão de que poderia a qualquer segundo desmaiar, mas finquei minhas unhas na carne de minha mão para me manter alerta. Funcionou, e assim continuei a esquadrinhar o quarto. O vaso sanitário para necessidades estava noutro canto, praticamente limpo senão pela sujeira do tempo.

Afinal, encontrei o habitante. De prima, me pareceu morto, recolhido num canto e suas pernas puxadas a um nível desconfortável. O rosto estava enfiado entre os joelhos quase de forma inumana. Dei um meio passo à frente e parei de súbito assim que notei o mais breve movimento no até então cadáver. A cabeça se moveu até que pude encarar João Canepelle nos seus próprios olhos de monstro. Eram íris de animal, quase felinas mas ainda mais traiçoeiras.

Os olhos felinos, afinal, foram feitos pelo Criador para habitarem o corpo de animais na Terra. O que havia naquele homem não era nada criado por Deus. Bastou-me uma de suas fitadas ardentes para que desejasse não ter aberto aquela porta, mas não parou nisto, já que estava impossibilitada de mover-me.

O homem esticou suas pernas abnormalmente longas e se levantou sem dificuldades, sem sequer procurar apoio, como se as leis da gravidade não se aplicassem aos seus movimentos tanto quanto as leis de Deus não se aplicavam às suas ações. O que quer que aquele monstro tenha feito para alegar insanidade, eu acreditava. Tantos foram os casos que ouvi sobre aqueles que alegavam, mas de louco nada tinham, apenas procuravam afastamento da prisão convencional.

João Canepelle era não apenas um louco, mas algo a mais.

Seus pés deslizaram pelo chão arrastando poeira para os lados, e logo ele estava bem em minha frente, ao que parecia metros e metros acima. Seu pescoço se esticava da mesma forma grotescamente inumana que o resto do seu corpo. Observei o arquear das costas dele para que pudesse me encarar no mesmo nível, e senti um arrepio percorrer pela minha espinha quando seu movimento se concluiu. Uma íris vermelha e reta como uma tábua estava atrás de uma pupila parda.

Ele abriu um largo sorriso para mim, e por certo pensei que tamanho movimento teria feito seu próprio rosto rasgar-se, faria com que toda a cartilagem ao redor da orelha se arrebentasse até que enfim apenas um lóbulo sobrasse, pendurado por um fio único e frágil.

Não foi apenas os seus podres dentes o que fez com que meu coração saltasse, mas assim que um som gutural em forma de risada saiu do homem, eu quase vomitei. Senti o estômago embrulhar com aquela visão. Acima disso tudo, senti a súbita certeza de que deveria sair dali. Aquele monstro podia estar sem comer e beber há meses, mas tampouco ele precisava. Aqueles que necessitam de alimentos são os humanos, e aquilo certamente isso não era.

Talvez a falta de hidratação fosse mesmo o que petrificou sua transformação naquela coisa, tão magra cujo próprio formato do esqueleto e do crânio eram facilmente vistos a olho nu. Era um homem careca, completamente liso, e isso fez com que sua aparência se tornasse ainda mais sinistra.

Dei um passo para trás, e outro mais tímido ao ver que ele estava a levantar seus braços flácidos, alongados, magros porém notavelmente fortes. Agarrou-me por ambos os lados e encostou seu crânio no meu, o sorriso ainda instalado em seu rosto maligno. Ele pôs uma língua comprida para fora da boca e passou-a pela lateral do meu rosto, continuando pelo meu cabelo, como se seu gosto lhe agradasse. Ah, Deus, meu bom e piedoso, por quê me deixaste abrir aquela porta?

Assim que a língua voltou para a boca, o som gutural da risada voltou. Encarei-o nos olhos pois não tinha outro lugar para onde olhar, e também porque, ao fechar meus olhos, era como se nada acontecesse. A visão continuava ali, logo à minha frente, tão assustada eu estava.

Quando ele se desvencilhou de mim e deu um passo para trás, pude não apenas sentir o alívio de voltar a respirar, mas também vi com meus próprios olhos meu abdômen encolhido de medo retornar à sua posição correta.

Quanto a Canepelle, foi como se ele estivesse voltando no seu próprio tempo, andando de costas e então se aconchegando no canto do quarto escuro. Voltou a encolher as pernas e sua cabeça se enfiou nelas. Não disse uma palavra sequer, mas eu jurava ter ouvido um sussurro.

– Você também está aqui.

O som dos meus passos rebateu pelas paredes do quarto, e então o grande barulho da trava da porta correu pelo andar até a sala de descanso, para onde fui. Era como se o som ainda estivesse habitando o lugar, pois o ouvia arrodear minha cabeça como um corvo no aguardo da morte do animal. O doce som dos goles que eu dava no café eram altos naquela sala, e também pareciam maliciosos, dolorosos. Qualquer breve som que escapava como por descuido me fazia mal.

Queria o silêncio confortável da minha mente, para pensar. E pensar foi o que fiz durante a tarde toda, sentada na mesma cadeira e me servindo cada vez mais de um café que me deixaria acordada pela noite toda quando ela enfim chegasse.

As imagens do que acontecera no quarto continuavam a passar pela minha cabeça como uma película do cinema mudo. Era um filme de terror do qual eu fora a protagonista. As palavras que João poderia ou não ter dito também me assombravam, eu procurava seu significado num acervo filosófico mental e particular. O sussurro muito me lembrava um sopro do vento, mas ainda assim um sopro que trazia uma mensagem. Enfim, quer ele tenha ou não dito aquilo, encontrei seu significado.

Com meu olhar fixo na paisagem além, percebi que estava numa prisão particular. Sempre estamos numa prisão. A sala à qual estava confinada era apenas um exemplo. No fim do dia, a lua já no céu, saí para a rua e continuava confinada, desta vez num mundo comum que não me agradava. Confinados, todos nós, num único universo.

Esse foi, porém, apenas a grande escala do pensamento. Nossos órgãos, sangue e ossos confinados numa única pele, num único corpo. Nossa mente, confinada num único cérebro. Todo dia acordamos e vamos dormir confinados sem nem nos darmos conta. Atravessamos parte da cidade até o nosso trabalho e nos submetemos a outro confinamento.

Afinal de contas, não somos tão diferentes de João Canepelle e dos outros presos nos quartos do hospício. A nossa única diferença era que suas prisões eram explícitas, a nossa, muito mais invisível do que o vento ou do que as ondas de rádio.

Tenho as chaves para abrir as portas dos quartos, mas não tenho a chave para a liberdade verdadeira. Talvez ninguém a tenha. Talvez seja impossível sermos livres. Você diria que a morte é uma liberdade, e foi o que pensei por um breve momento, até perceber que, se algo, é a maior prisão de todas.

A maior prisão, e dessa realmente não podemos escapar. A cada tique do relógio, a cada pôr do sol que observamos pela janela, estamos um passo mais parto do nosso confinamento final, o único confinamento que não nos permite que o percebamos. Não estamos confinados em nossos corpos, nem em nossas mentes, apenas estamos confinados à não existência e tudo o que ela implica.

Todo dia, quando desligo o despertador e depois ponho os pés no chão frio, ando até minha janela e abro a cortina. Passo de um a dez minutos observando a lua descer e o sol subir. O céu sai do seu azul escuro e se torna claro novamente. Nesses minutos, minha mente não está em lugar algum. Apenas existo sem pensar, ou então pensando em tantas coisas que é impossível descrevê-las ou sequer percebê-las. São os minutos que passo contemplando a nossa prisão.

Para a ignorância, há remédios; para o conhecimento, nenhum.

One Reply to “A Porta do Inferno”

  1. Gabriela A.W. says: Responder

    que fodaaaaaa <3 <3

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