A Sangue Frio: um romance de ficção

Do blog “Hey, Random Girl!”

O primeiro livro que li de Capote foi Música para Cameleões, uma belíssima coletânea de contos que finaliza com o poderoso “Caixões entalhados à mão”, uma novela que também se diz pertencer ao gênero da literatura de não-ficção. Esse novo gênero literário foi criado por Capote através da publicação do seu romance A Sangue Frio. Na verdade, o mais correto seria dizer que foi Capote quem amadureceu o gênero já existente, mas já vimos na literatura como esquecimentos dos primeiros e atribuições errôneas são comuns.

“Caixões” não é escrito do mesmo modo de A Sangue Frio. Em primeiro lugar, no primeiro o autor se põe logo no centro da história, sendo seu personagem principal, em outra a narrativa é composta, assim como todo o resto da coletânea, apenas por diálogos que possuem alguns parênteses de narrativa em determinadas partes. Pode-se dizer que se assemelha muito a um roteiro de teatro, com seus parênteses sendo suas didascálias.

Fiquei tão impressionado com essa novela que fui buscar mais informações. Pesquisei pelo nome dos envolvidos, mas não encontrei nada. Pensei fazer sentido a mudança de nome, embora agora veja em A Sangue Frio uma representação mais fiel; era uma questão de anonimidade. Mas um caso tão peculiar certamente entrou nos jornais ou havia alguma menção a ele na internet, o aglomerado de informações do mundo. Assim, encontrei um artigo há muito perdido do meu histórico que relatava as farsas daquela brilhante história: a ideia surgiu a partir de uma conversa entre Capote e um investigador, mas o relato do último tinha pouco a ver com caixões ou qualquer coisa presente na narrativa. Em suma, Truman Capote inventou toda a história; a ficção surpassava o jornalístico. Não era, de fato, um romance [ou novela] de não-ficção.

De “Electric Literature

Foi isso o que tinha em mente ao ler A Sangue Frio. Eu sabia que a parte verdadeira era grande nessa história. De fato, dois sujeitos chamados Dick e Perry invadiram a casa de um agricultor rural e mataram ele e sua família. Isso foi o que tinha em mente como sendo verdadeiro, o resto poderia muito bem ser mentira. Duvidei que Nancy tivesse um namorado, que Dewey tivesse uma família, que o empregado que morava perto tivesse ficado acordado para cuidar de um bebê doente etc… Tentei o máximo possível ler o livro como uma ficção, assim como pesquisarei o mínimo possível sobre a história real por trás dessa brilhante narrativa. Se tinha em mente Capote como um mentiroso mas um grande escritor, esse livro o pôs no patamar de um gênio literário: através de uma descrição realista e de longos parágrafos ora descritivos, ora narrativos, Capote conduz a trama com maestria; seus blocos de texto podem passar de um tópico para outro sem o leitor perceber, pois além de dominar a narração em grande escala, ele sabe fazer o mesmo com seus parágrafos. O romance é dividido em quatro capítulos de aproximadamente cem páginas cada, mas cada capítulo possui diversas quebras de parágrafo que pulam para uma outra cena, outra pessoa, outra “personagem”. Dos Clutter para os assassinos, dos assassinos para o investigador Dewey ou então algum outro morador de Holcomb.

No primeiro capítulo conhecemos os Clutter, cada um deles com sua história pessoal, e os preparativos de Dick e Perry para o assassinato; no segundo, como as mortes afetaram a pequena cidade e amigos íntimos da família e novamente somos narrados os trajetos dos assassinos; no terceiro, temos uma maior participação do investigador Dewey e de outras autoridades que buscam os culpados, também continuamos a par da trajetória da dupla; por fim, o julgamento, e temos uma maior distância entre Dick e Perry, geralmente estamos ora com um, ora com outro.

O maior problema do livro, fora a parte de ser ou não ficção, foi a introdução repentina de “personagens” que logo possuem importância, como a mulher que cuida de Perry durante seu cárcere. De todo modo, encaro isso como um mal necessário do gênero, já que introduzi-la antes poderia significar a introdução de uma cena fictícia, pois ela precisaria ter um certo mérito literário para estar lá antes da hora necessária.

No livro, algo que me chamou atenção além da magnífica prosa de Capote foi a sua facilidade em criar ganchos nas suas quebras de parágrafo. São esses ganchos que nos fazem querer ler o próximo e o próximo e o próximo. Assim, após pegar o livro para ler mais uma pequena parte, fecho-o depois de cinquenta ou cem páginas. Desse modo, as quatrocentas páginas não são tão pesadas quanto podem parecer à primeira vista. Truman Capote é um autor que vou manter na estante, quero ler suas obras todas por conta da expertise literária desse gênio com as palavras.

Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.