Adaga de Gelo

Todo inverno, a vila de Eckart envia comida para um antigo monstro no topo da montanha, para que ele não destrua a vila como fizera num passado ainda lembrado. No dia do envio da oferta, Sifrah encontra um livro e tem uma ideia que poderá mudar a vila para o resto dos tempos.

Adaga de Gelo (abrir numa nova aba)


No topo do telhado da casa, o ar era ameno, rarefeito. A casa não era grande, ou se parecia com uma mansão, embora Sifrah a visse dessa exata maneira. Era uma casinha de campo, com uma varanda de madeira no primeiro andar e um fogão a lenha lá dentro. Certamente era alta, embora não muito larga. A pintura ainda estava como nova, era um marrom envernizado que fora posto na madeira polida.

O inverno havia chegado há tempo, e com ele a neve fina que afundava o pé. Sifrah não era muito de sair de casa nos dias de inverno, mas apreciava a vista. Seu quarto ficava no terceiro andar, que possuía um banheiro e um corredor estreito (mas largo o suficiente para descer a escada). No segundo andar ficava o quarto da avó, enquanto no primeiro, o maior, residiam a cozinha, um outro banheiro, uma salinha comum e a porta para a varanda. Enquanto isso, a casa em si ficava no centro da vila, sendo observada por tudo e todos.

Era tão velha que antecedia o bisavô do prefeito, e, segundo a física e a lógica comum, deveria estar caindo aos pedaços, mas fora cuidada com extremo carinho através dos anos. A vovó havia herdado da sua mãe, e a mãe dela da sua mãe, e assim por diante. O começo da história daquele grande pedaço de madeira era indeciso, mas sua avó gostava de uma história em particular, talvez ela mesma houvesse criado.

– Quando minha tataravó se casou, o marido prometeu a ela que faria uma casa onde os dois poderiam morar até o fim da vida, e foi o que ele fez. Não sem ajuda, claro. Ele recebeu ajuda de alguns marceneiros da cidade grande, comprou madeira que não acabava mais (dizem que todo o chão da vila poderia ser coberto de madeira, era tanto assim que havia).

– Se havia tanta madeira, por que ele construiu uma casa tão fina? – Sifrah havia perguntado certa vez. Pedira para vovó contar aquela história inúmeras vezes.

– Porque era assim que ele queria – ela respondera. – Uma casa tão alta quanto uma montanha, mas tão magra quanto uma escrivaninha. Agora sabemos que ele conseguiu um pouco mais do que a largura de uma escrivaninha, mas aconteceu bem como ele disse.

Ela contava também que a tataravó havia ajudado na construção, pintura e decoração. Após o término, passaram a morar nela. E a casa permaneceu na família desde então. Claro que todos cuidariam muito bem dela, quer tivesse uma história fascinante por trás dela ou não. Cuidariam apenas porque era uma relíquia, tanto histórica quanto familiar.

Sifrah conseguia chegar ao telhado através da janela do seu quarto. Quando era criança detestou aquele impedimento para ver a rua, a compridez a mais das telhas, mas agora que era adulta (achava ser), conseguia ver o valor naqueles poucos centímetros. E estava mais alta, também. Podia ver a rua do seu quarto se quisesse, mas preferia sentar nas telhas avermelhadas e observar do topo. As águias que tanto via pelos céus deviam sentir a mesma coisa que ela.

Certo que a casa não era tão alta quanto uma montanha, mas era alta. E não era tão alta que águias passariam raspando pelas telhas, mas mais de uma vez alguma entrou sem querer no quarto de Sifrah, e o sofrimento para tirá-la de lá fora enorme.

A vila não era grande, e do topo era possível ver seu começo e seu fim. A Estrada do Comércio agora estava toda coberta de neve, e as carroças teriam de ter mais cuidado para ir e vir. No outono a estrada era coberta de folhas das árvores carmin; na primavera, flores culminas, estrelinas e lativas cresciam pelos cantos da estrada, ou então mais mata adentro. No verão não havia muita coisa a não ser o suor pingando dos corpos dos homens que trabalhavam sob o sol ardente; e no inverno, além das roupas extras que todos usavam, havia o gelo misturado com a terra.

Depois que muitas carroças iam e vinham da vila Eckart, a neve caída na estrada começava a ficar marrom da terra das rodas. Até que no dia seguinte nevasse novamente, e cobrisse com mais neve branca. Era um processo rotineiro esse. E apenas nevava à noite, raramente durante o dia. O último caso fazia mais de década. Era uma coisa boa, assim tudo podia continuar de modo até mesmo normal.

Usavam botas, sim, e jaquetas peludas, também, mas podiam armar suas barracas e esperar por compradores, pois eles sempre apareciam. Se não eram viajantes que seguiam até a cidade de Corcova, era os próprios moradores de Eckart que compravam os produtos muito necessários. No inverno o lenhador Jurêncio era o que mais ganhava dinheiro, mas a família Mana já havia tanto feito compra de lenha como Sifrah mesma cortara boa parte do que tinham.

Lindara de Mana era o nome da avó, mas Sifrah Mana apenas a chamava de Linda, quando criança, e apenas de “vó” agora que era adulta (novamente, ela acreditava nisso). Apenas 17 anos e tanto já havia acontecido, sofrido, especialmente com a morte dos pais para uma doença que ainda era desconhecida. Mas a doença atacara os dois quando ela ainda era um bebê, e Linda a criou desde então. Visitavam o cemitério todo outono para deixar algumas lativas, já haviam o feito naquele ano.

Quando Américo começou a tocar o sininho típico, Sifrah devia ter sido a primeira a ouvir. Conseguiu vê-lo em frente ao seu carrinho de madeira muito velho, que parecia não suportar mais nada.

– Vamos, todos, tragam seus alimentos. Vamos, todos – tocou o sininho novamente. Tinha um som incrivelmente alto para algo tão pequeno.

Demorou alguns segundos até que o dia começasse direito, todos saíram das suas casas resmungando. Linda gritou da cozinha:

– Sifrah, venha aqui agora! Acorde! – sua voz não era a de uma mulher de 90 anos.

– Já estou acordada – gritou de volta e voltou para dentro do seu quarto. As telhas eram suas conhecidas, não precisava mais tomar cuidado para não cair.

Entrou no quarto e correu para o primeiro andar. A escada era bastante fina também, mas muito resistente. Havia uma linha direta que a levava até o primeiro andar, não precisou parar no segundo. Sua avó estava segurando duas sacolas de papel que pareciam pesadas, mas ela não fazia muito esforço.

Bem como o sininho, Linda não aparentava fazer tanto barulho, mas conseguia quando queria. Diferente dele, porém, não era nem um pouco pequena. Talvez fosse gorda demais para aquela casa, mas Sifrah acreditava que Linda combinava com ela. Assim como ela própria algum dia combinaria com aquela magrela casinha de madeira.

– Leve essas comidas para Américo, e não deixe que nada a distraia! – Linda advertiu.

– Eu não vou deixar – prometeu Sifrah, e pegou as sacolas da mão da avó. Eram bastante pesadas, mas conseguiu carregar as duas, uma em cada mão. Sifrah balançava de um lado para o outro, procurando o equilíbrio.

Saiu para a varanda e procurou por Américo, que havia mudado de lugar. Seu carrinho possuía já muitas outras sacolas, mas Sifrah e ele sabiam que não eram todas, ou mesmo o suficiente. Então Américo começara a andar com o carrinho pela estrada da vila. A neve era pouca porque as crianças haviam tirado boa parte no dia anterior por alguns trocados, mas notava-se a dificuldade no andar do homem.

Era o encarregado disso nessa parte do ano por ser o mais forte. Trabalhava com marcenaria, e tinha músculos grandes nos braços e pernas ágeis. Caso necessário, poderia ganhar uma corrida contra um guepardo. Sendo que fazia o que fazia quando o inverno chegava, talvez fosse até mesmo preciso.

– Sifrah – ele disse não com a voz de quem acabou de acordar. – Trouxe tudo?

– Sim. Isso é tudo – parou em frente ao carrinho e levantou uma sacola por vez para pôr sobre as outras. Ela queria ajeitar com cuidado para não cair, mas Américo lhe deu um tapinha na mão e fez isso ele mesmo. – Quando você vai subir?

– Se todos entregarem as comidas, daqui a pouco. E espero estar de volta antes do anoitecer de amanhã.

– Você tem um casaco?

– Tenho um velho, mas posso arranjar algum lugar bom para dormir no caminho.

– Aqui, pegue o meu – Sifrah tirou o seu casaco e o estendeu para Américo. Ela era alta o suficiente e ele baixo o suficiente para que servisse bem.

– Não, eu não posso.

– Pegue, use como cobertor, e amanhã pode me devolver. Ele vai ser muito melhor do que um pano, olhe por dentro, é pelo de ovelha.

Ele pegou o casaco e o segurou no braço.

– Obrigado, Sifrah, amanhã eu entrego de volta. Onde estão esses…? – Américo pegou o sininho e o tocou de novo, apontando-o para longe dos rostos dele e de Sifrah. O barulho foi maior de perto.

– Você acha que vai ser o suficiente?

– Sempre é – ele respondeu. – A não ser que alguém tenha relaxado, teremos problemas. Mas duvido que alguém tenha feito isso. Sabe como eles têm medo.

– E você não tem?

Ele deu de ombros, pensativo.

– Medo tenho, mas não tanto quanto eles. Vocês – corrigiu, apontando um dedo para Sifrah. – Ou vai me dizer que não tem medo?

Sifrah sorriu, mostrando seus dentes brancos que também podiam muito bem ser herança de família. Linda ainda possuía os seus, embora agora um pouco amarelos.

– Como posso ter medo de algo que não conheço? Sei que sentiria medo caso fosse até lá, mas… Daqui de baixo, não há de que sentir medo. A não ser que alguém relaxe na comida. Oferenda.

– Nós não chamamos de oferenda, você sabe disso – ele advertiu. – Aí vem os outros.

Mais pessoas se aproximaram e deixaram suas comidas no carrinho de madeira. Américo ajeitava as oferendas assim que elas eram postas. Quando aquelas pessoas saíram, ele se inclinou para Sifrah e sussurrou:

– Posso te contar um segredo? – ela assentiu e também se inclinou. – Eu também nunca vi ele.

Sifrah se afastou e olhou para Américo, perplexa.

– Como assim?

– Eu nunca vi ele – repetiu. – Eu apenas despejo a comida na entrada da caverna, grito que foi deixado, e saio correndo o melhor que posso. Posso até levar o carrinho nos braços, pois ele fica bem leve sem toda aquela tralha.

– E ele nunca está esperando? Você nunca viu nem mesmo uma sombra dele?

– Uma sombra, já. Foi dois anos atrás, se não me engano. Ele estava para o fundo da caverna, coberto por uma pedra, mas havia uma fogueira na frente dele, e a sombra foi refletida numa pedra que conseguia ver. Só posso dizer que é grande, muito mais não sei. Mas acho que ele estava comendo algo, algum animal. Ouvi o que parecia ser ele mordendo a carne, mas não vi nenhum animal morto ou sangue em parte alguma.

– Então você nunca viu ele… – Sifrah disse, absorvendo a nova informação.

– Mas eu sei como ele é, mais ou menos – Américo disse, e mais pessoas chegaram para deixar suas comidas.

Sifrah não pôde perguntar, então voltou para casa. Da varanda, viu que ainda mais pessoas se aproximavam do carrinho. O sininho ficava preso num cinto na cintura de Américo, e dele saía um som suave enquanto Américo se mexia para pegar as sacolas de quem era fraco e para arrumar a comida num lugar certo.

Quando Sifrah entrou na sala, de cara conseguia ver a cozinha, era um portal muito largo e sem porta. Linda estava sentada numa cadeira, na mesa de jantar, tomando café da manhã. De boca cheia, ela apontou para uma cadeira à sua frente para Sifrah se sentar.

As duas comeram café e pão, Sifrah café com leite. Quando terminaram, ela disse que limparia tudo, então a avó foi para o segundo andar, cuidar de algo que Sifrah tinha nenhuma ideia do que poderia ser. Era um mistério para ela o que sua avó fazia na maioria das vezes. Isto, é claro, não incluía quando Linda estava jogando cartas sozinha na sala.

Após colocar as xícaras limpas viradas sobre um pano para secarem perto da janela, Sifrah correu para o quarto. Às vezes, quando corria bem rápido, a casa tremia, só um pouquinho. Mas não foi o caso dessa vez. Ela entrou no quarto e se esparramou na cama.

Não ocorreu muita coisa por um bom tempo, apenas algumas pessoas que, e ela apenas ouviu sem se mover, desejaram boa sorte para Américo. Sifrah já sabia que ele teria sorte, afinal, estava com o seu casaco da sorte. E ela também sabia sobre as botas que ele sempre usava, apenas naquele dia especial. Estava duplamente protegido.

Antes mesmo da primeira hora passar, Sifrah ouviu gritos vindos da rua. Ela se levantou num pulo e correu para a janela. Viu, na estrada, uma mulher com um bebê no colo, gritando para o portão da vila, mas sem esperança na sua voz. Sifrah reconheceu a mulher como sendo a esposa de Américo.

Ela desceu correndo as escadas, desta vez a casa tremeu, um pouco.

– Cristal! – chamou-a. – O que aconteceu?

– Ele se esqueceu da nossa oferta. Apenas percebi agora, quando fui pegar o leite para o Joãozinho. Deve ter se preocupado tanto com o carrinho que não se lembrou. E agora, Sifrah? Não posso levar para ele – ela ajeitou o filho no colo.

Sifrah olhou para o lado que ficava a saída da cidade que Américo usara. Não se via mais nada além de talvez uma fina camada de serração no ar. Américo já estaria longe demais para que o alcançassem ligeiro.

– Tem certeza de que é necessário? Eu vi o carrinho antes de ele sair, estava bem cheio.

– Você sabe que é melhor não arriscar. Sempre damos a nossa comida também, talvez ele vá perceber. Não quero correr o risco e deixar que Américo seja morto. E, ainda pior, não quero correr o risco de deixar o monstro zangado, e se ele vir aqui para a vila? Nós não estávamos vivos da última vez que isso aconteceu, mas sabemos dos estragos.

– Então pode me dar a comida que eu levo! Américo não vai estar muito longe daqui, posso ir correndo. Ele sempre segue a estrada, vou encontrar ele no caminho.

– Tem certeza de que consegue, Sifrah? – Cristal pareceu preocupada. – Você nunca saiu da vila antes, ou saiu?

Ela havia saído apenas uma vez, quando criança, pois fora com a avó para a cidade grande comprar algumas coisas que ainda não possuíam na vila. Agora não havia mais a necessidade de ir para lá, e Sifrah nem mesmo se lembrava de que como ela era.

– Já saí várias vezes, conheço muito bem a região ao redor da vila. Posso encontrar ele! – não era uma mentira completa. Do topo da casa, ela podia ver boa parte da região. Claro que nesses dias de inverno a visão era obstruída pela névoa.

Cristal mordeu os lábios.

– Venha comigo, então – ela disse e entrou na sua casa.

Arrumando o bebê no colo de novo, ela caminhou até a cozinha. Havia uma sacola de papel resistente sobre a mesa. Sifrah se aproximou e pegou a sacola pelas alças. Testou o peso para ver se iria rasgar, mas estava tudo bem. Notou, pela visão periférica, que numa prateleira havia um livro verde, grosso e antigo.

Ela se aproximou sem pensar muito. Ao mesmo tempo, enrolava a ponta da sacola a própria comida dentro, e então a pôs sob o braço, para conseguir correr melhor.

– Pode levar – Cristal disse, notando o interesse dela. – Comprei na cidade, mas não me serve de muita coisa. Américo gostou porque tem um desenho do monstrengo, mas eu mesma nunca vi, não quero ver. Só que não é em português, então não tem muita utilidade.

Pegando o livro e folheando-o rapidamente, Sifrah parou numa página e viu o texto. Era latim, linguagem que a avó a ensinara quando pequena. Reconheceu algumas poucas palavras, mas não conseguiu formar uma frase tão rápido. Sua mente estava fora de uso naquele aspecto havia alguns bons anos, mas o conhecimento estava lá.

– Obrigada – respondeu a Cristal. – Vou levar a comida para Américo. Não se preocupe.

Quando nas outras estações do ano, as estradas ficavam bem visíveis. Sifrah as conhecia de cor, e embora não corresse tanto quanto na infância, ainda era muito boa nisso.

Os portões da cidade era como era chamado um vão na cerca que delimitava todo o território de Eckart. Entre uma tora e outra havia apenas alguns metros, o suficiente para uma carroça grande passar. Havia um num lado e outro noutro. Aquele lá levaria para o topo da montanha e, por outro caminho, para a vila Girassol. O portão do outro lado levaria para Corcova e também para um lago que no inverno congelava, chamavam ele de Biró.

Enquanto a cidade atrás começava a ser devorada pela névoa, a estrada pela frente ficava mais e mais visível. Após um bom tempo de corrida, Sifrah parou, tomou um ar, e começou a caminhar com o passo apressado. Passou o desvio da estrada que levaria para Girassol, e ouviu um barulho familiar. Era o carrinho velho de Américo.

Encontrou-o alguns poucos minutos depois, ele não a havia notado. Quando Sifrah chamou seu nome, ele ficou confuso, então olhou para trás e ficou ainda mais confuso.

– Sifrah? O que faz aqui?

– Cristal disse que você havia esquecido sua oferta para o Taag. Aqui. – ela estendeu a sacola de papel. Américo a pegou, tossiu e a pôs sobre o resto da comida.

– Obrigado, não sei o que poderia ter acontecido se entregássemos a menos este ano. Talvez ele fosse para a vila, ou então para a cidade. Imagine o horror, Sifrah.

– Tenho certeza de que ele não notaria a diferença. E faz tanto tempo desde a última vez que ele deve ter se esquecido o caminho.

– Faz muito tempo para nós – Américo apontou o dedo –, mas não para ele. Não, eles vivem muito, esses da espécie dele. Para o Taag, a última destruição foi anteontem. Para nós, foi há cento e quarenta anos. Vejo que Cristal a entregou o livro.

– Ela disse que eu poderia ficar com ele.

– Sim. Ela mesma odeia ele, diz que deve trazer má sorte para o bebê. Se precisasse, subiria a montanha para entregar ao Taag e se livrar no maldito livro. Talvez ela esteja certa, talvez não – Américo se virou e levantou o carrinho com pouca dificuldade. – Quando você ter um filho, Sifrah, dê o livro para outra pessoa. Nunca se sabe, não é?

Ele começou a andar novamente, a uma velocidade menor. Aos poucos foi caminhando mais rápido. Antes de ele novamente ser comido pela névoa, Sifrah se despediu.

O ar era gélido, e Sifrah estava sem casaco. A corrida a havia proporcionado calor, mas agora estava cansada demais para correr. Caminhava sem preocupações pela estrada, chutando montes de neve que encontrava. Aquela ainda era branca. Quando olhou para trás novamente, uma carroça estava perto, certamente a caminho de Eckart. Ou, pelo menos, com certeza passaria por lá.

Sifrah levantou um dedo e esperou. A carroça parou, e o homem sobre ela foi para o lado, dando espaço para ela subir e se sentar. Ele se apresentou, e ela também. O resto da viagem, embora ainda muito frio, foi mais rápido.

Ela pusera o livro na mesinha que possuía no quarto. Sobre ela havia também uma flor de estimação, que no inverno carecia maiores cuidados. Era uma lora roxa. As folhas das loras eram as coisas que Sifrah mais gostava. Possuíam duas curvas, uma para fora e outra para dentro, tendo a ponta das roxas folhas apontando para o estigma comprido no centro. Embora fosse comprido, não ultrapassava a barreira natural que as folhas faziam.

Era bela, sim, mas Sifrah gostava dela ainda mais porque sua avó dizia que era a flor preferida da sua mãe. Era uma das poucas coisas que ela sabia sobre a mãe, e aproveitara muito bem a informação.

Linda era fluente em latim. A língua antiga, era como a chamava. Dizia que lhe fora ensinada ainda em época de menina, na escola, por uma professora rabugenta e cheia rugas. Hoje Linda era quem tinha rugas, mas rabugenta não era. Fora a professora de Sifrah, basicamente na mesma época em que a ela mesma fora ensinada o idioma, era isso o que Sifrah pensava.

Américo voltara são e salvo. O inverno continuava a gelar comerciantes que cedo acordavam para armar seus mercadinhos móveis. Eram tendas com longas e finas varas de madeira que sustentavam um pano que ficava cheio de neve por cima antes mesmo de o sol ao céu chegar. Volta e meia Linda pedia a Sifrah para que fosse caminhar pelos mercadinhos, e dizia para que comprasse o que bem entendesse. Dava preferência a frutas, Sifrah sabia, mas qualquer outra coisa que pudesse ser aproveitada para comida – com sorte mais de uma vez – era bem-vindo.

Usando o casaco que Américo a devolvera, Sifrah foi para a rua, caminhar sobre branca neve e terra que não se via mais. Alguns dos mercantes eram da cidade, e ficariam em Eckart por mais um dia, então partiriam para outra vila. Sifrah comprou destes os frutos, pois sabia que os da cidade geralmente eram mais frescos e maduros. Dos mercantes locais comprou grãos, como arroz e feijão, e também pão. Não havia peixes para vender.

Carregava uma cesta de vime que deixava sempre, ao voltar, ao lado do portal da cozinha. Sua avó a pegava, de vez em quando, para lavar ou para ela mesma ir fazer compras, mas geralmente a cesta estava lá, limpa, quando era o dia de Sifrah novamente navegar pelas ruas vultuosas de Eckart. A cesta tinha uma base funda, e cabia tudo e mais do que era necessário. Se as compras foram fartas e a comida não faltaria, Sifrah comprava um pão a mais e deixava com os mais desfavorecidos. Era o máximo que ela conseguia fazer, pois as Mana não eram ricas.

Sifrah entrou na casa, passou pelo portal e deixou a cesta sobre a mesa da cozinha. Tirou o pão e guardou com um outro, já no fim, que havia numa outra cesta, menor, para os integrais. Frutas também tinham o seu lugar, e Sifrah sabia onde era ele. Guardou tudo e, depois de checar a cesta para verificar que estava vazia, deixou-a junto ao portal. Subiu para o quarto sem pressa, e ao chegar jogou-se na cama, cansada, apesar do tão pouco esforço que fizera.

Não tinha certeza se se levantara para pegar o livro ou se o mesmo viera flutuando até ela. A canseira era muita, e a janela estava aberta. O vento entrava para o quarto e resfriava a pele, os pequenos pelos no braço e pernas de Sifrah se erriçaram, e ela tinha recordação de ter se levantado para colocar uma calça de lã. Estivera usando um simples vestido. O frio nunca realmente a incomodara, pois sempre se sentava no telhado e encarava-o com braveza. Naquele dia o cansaço a enfraquecera de corpo, embora não de mente.

Mente afiada, esta, pois lembrava-se do latim tão bem quanto um cachorro se recorda donde enterrou o osso. As palavras apareciam em sua cabeça na medida em que lia, mas depois de meia hora não foi mais necessário procurar por tradução para o português no fundo da cabeça, pois o idioma antigo voltava para a superfície do conhecimento. Levantara-se para vestir roupas quentes, mas a janela permanecia aberta. Quando ela teve a ideia de fechá-la para então tirar aquelas lãs, o sono a pegou. E sonhou com o livro.

Era um livrinho grosso, mas de letra grande. Lera-o por completo em tão poucas horas, e o desenho do Taar, mostrado aos rabiscos por um ilustrador competente na página 17, continuava vivo em sua cabeça. Lera toda palavra e absorvera todas, mas não as identificaria como são até a manhã, quando acordaria percebendo que achara a solução.

O monstro no sonho era tão detalhado quanto o do papel. Alto, corpulento, de pelo branco e grosso que caía no corpo. Os dentes de baixo apareciam mesmo com a boca fechada, eram pequenos. Com a boca aberta, apareciam os de cima, com o mesmo tamanho normal – normal para o corpo do Taar, gigante para o de Sifrah. Havia caninos longos e afiados, apareciam em todos os casos, aberta ou fechada lá estavam eles, para amedrontar e a carne despedaçar. Os olhos, juntos de sobrancelhas grossas e mortais, mostravam a ferocidade do monstro. Capaz de destruir um homem com duas dentadas, e acovardar outro apenas com uma fitada longínqua.

Era nas mesmas páginas amarelas em que se dizia o modo de como matá-lo. Método antigo e eficaz, necessitava de um guerreiro de grande disposição para realizar o ato. Uma adaga de gelo teria de ser usada, e no coração do bicho era onde ela deveria ser cravada. Mas Taar volta dos mortos, tanto é que este que importuna Eckart há gerações viu verde grama e branco tapete por mais tempo do que qualquer um já conhecido. Prende-se a essência do ser num pergaminho antigo, pergaminho versátil. Um pano e tinta era tudo o que pedia, e no pano deveria ser escrito o que estava na última página. Símbolos, runas, que formavam círculos e mais círculos, alguns não completos e interligados a outros, e então letras – se isso – que nada mais eram do que riscos bem traçados.

Ponha sobre o Taar e ele não irá voltar, dizia o livro. E o frio chegava no quarto pela janela aberta, o vento corria e batia as venezianas. O Taar rosnou para Sifrah, e ela acordou.

– Sifrah, você não deve deixar a janela do seu quarto aberta. Olhe só o que aconteceu! – Linda falou. O susto que Sifrah levara pelo pesadelo acelerara seu coração. – Desça logo, o café está pronto.

– Sim, vó.

Sifrah viu ao que Linda se referia ao se levantar. O peitoril da janela estava coberto de neve que lá caíra pela noite. A garota bufou e caminhou até ela, onde arrastou parte da neve para fora com as costas da mão, como se fosse uma pá. O livro ainda estava sobre a cama, ela havia dormido com ele sobre o peito, e quando saiu ele caiu para o lado. Caiu na página com a ilustração do Taar. Sifrah fechou o livro e o colocou sobre a mesinha.

Ela vestiria outra roupa mais tarde. Primeiro desceu para tomar o café da manhã. Sua avó já estava sentada à mesa e passando geleia numa das últimas fatias do pão velho. O novo ainda estava na cesta sobre a bancada da cozinha. Sifrah se sentou e pegou a fatia restante, passou geleia na sua também.

– Vó – ela começou –, o que a senhora pensa sobre o Taar?

– Em que sentido? – Linda perguntou após tomar um gole do café.

– Você acha que é justo isso o que fazemos, levamos comida para ele e em troca ele não invade a vila?

Linda olhou para Sifrah com cuidado, tentando decifrar o que ela queria dizer.

– É claro que é justo. Se ele não existisse, ou então existisse e não nos importunasse com isso, certamente seria melhor, mas esse não é o caso, não é? Estamos fadados a conviver com essa troca entre comida e proteção pelo resto dos tempos.

– Então a senhora acha que seria bom se alguém matasse o Taar?

Linda riu.

– Não fale assim, menina, isso soa horrível. Não é bom matar nada nem ninguém, mas não posso dizer que iria para o funeral. Estamos mandando comida para lá todo inverno, e isso que nunca vi o monstro, mas sei que a maioria das pessoas dá o que tem e falta em dobro. O Taar é grande, forte, poderia caçar comida antes do verão, mas não faz isso.

Ela deu outra mordida no pão, e bebeu outro gole do café.

– É coisa ruim para a vila, passamos bastante tempo nos preocupando com isso. Durante todo o inverno ficamos pensando se ele aceitou a oferta, se é o suficiente para que ele deixe a gente em paz. Eu acho que sem essas preocupações, a gente estaria bem mais alto do que estamos agora. Por que todo esse interesse no Taar, Sifrah, está pensando em se candidatar para oferteira?

– Não. Américo é quem faz isso, e ele faz bem. Só estive pensando sobre o assunto ultimamente.

– Lá de cima da casa deve dar para ver bem a montanha – e dava sim! –, mais no topo talvez consiga ver a caverna onde ele vive. É só um amontanhado de neve, sabe, lá sempre tem neve. Acho que ele nem mesmo consegue sair da caverna quando não é inverno, e apenas de quando em quando ele vinha para a vila bagunçar tudo por causa da comida. O Taar precisa de frio, de neve. Ele é mais sensível do que gelo no verão.

– E o que aconteceria se o Taar ficasse fora do frio? – pelo que Sifrah se lembrava, não havia nada no livro que falasse a respeito disso.

– Se por pouco tempo, creio que nada, mas se ficasse por muito tempo… Não sei. Talvez morresse, ou então ficasse fraco. É bem igual a nós fora do nosso ambiente, imagino. O que aconteceria com você se não estivesse aqui em casa, confortável? Deve ser o mesmo para ele.

Sifrah terminou seu café, mas não saiu da mesa ainda.

– Então a senhora realmente acha que a vila estaria melhor sem o Taar?

– É claro – ela disse como se fosse uma resposta óbvia. E era, Sifrah sabia disso. – Muito melhor, talvez mais feliz.

Linda continuou a terminar seu café. Sifrah empurrou a cadeira de volta para a mesa depois de se levantar. Antes de subir a escada, fez uma nova pergunta:

– O que aconteceu com os outros Taar? Como eles morreram?

– Não sei se morreram. Dizem que sim, mas eu acho que eles apenas encontraram outro lugar para viver. Um lugar onde poderiam caçar de verdade, um campo onde não chega o verão. E aquele ali ficou, não sei por quê. Seria fácil os outros terem se mudado, era só saírem no inverno.

O quarto não estava mais frio quando ela entrou. Com calor, ela pôs uma roupa mais leve e abriu novamente a janela. Já não estava mais nevando. Sifrah agarrou o batente da janela e pôs primeiro o pé direito sobre o peitoril, usou sua força para passar o pé esquerdo para fora da casa, e equilibrou-se com louvor.

Ficou em pé sobre o telhado por alguns segundos, andou até uma das partes mais elevadas e se sentou após afastar um pouco da neve. A telha vermelha apareceu em breve, e a mão de Sifrah já estava gelada. Não ficou assim por muito tempo, sendo que logo o calor do sol encostou em sua pele. Ela esticou as pernas e deitou-as sobre a neve fofa, espreguiçou-se para se livrar do cansaço de uma vez por todas e passou o olho pela silhueta das montanhas.

Sua visão caiu sobre a montanha do Taar. Lá estava ele, aproveitando da comida do povo de Eckart. Sifrah encarou a montanha por mais algum tempo, então tomou uma decisão.

Com o tempo, ficara também ágil, pois fazia exercícios constantemente. Um dos seus preferidos era descer a casa, do topo, até a rua lá no chão. Fazia isso como se fosse habilidade natural, e após tanto tempo, era mesmo. Ela se equilibrava sobre venezianas e madeiras expostas. Apesar da idade, era leve o suficiente para que não fosse um grande risco. E a habilidade também ajudava na confiança de que não cairia de cara no chão.

Ela desceu às pressas, e mesmo assim não escorreu uma única vez. Correu para uma loja fixa que estava aberta, lá comprou tinta para escrever. Guardou o potinho de vidro na calça de bolsos largos, e subiu para o seu quarto novamente pelo exterior da casa. Não havia tempo para coisas como portas ou escadas.

No quarto, primeiro ela pegou uma camiseta velha que ainda guardava, por não querer se livrar dela. Havia uma pena sobre a mesinha, ela a pegou e levou para a cama. Pôs o livro, aberto na última página, na sua frente e, sobre a página inútil do livro, pôs parte do tecido da camiseta.

Começou a copiar a inscrição que deveria ir ao pergaminho.

Ela desceu as escadas, degrau por degrau, até chegar ao ponto em que conseguiria ver o segundo andar. Mesmo da escada, conseguia ver a cama de Linda, na qual ela dormia pacificamente. A avó não se preocuparia muito no dia seguinte, pois apenas pensaria que Sifrah havia acordado e saído de casa mais cedo.

Sifrah subiu de volta ao quarto e pegou um casaco, no qual enfiou no bolso a camiseta. A tinta havia secado, e o desenho estava exatamente igual ao do livro. Ela desceu pela janela do quarto mesmo, pois achou que não havia tempo a perder. A neve ainda caía com lerdeza nas ruas brancas, e as luzes de todas as casas estavam apagadas.

Pendendo de postes de madeira haviam lampiões acesos. Foram eles que iluminaram o caminho de Sifrah. Podia ainda ser dez horas da noite, mas o sol estivera fora do céu por mais de seis horas. No inverno era assim que acontecia, e todos dormiam mais cedo por conta do confortável frio.

Na estrada para o topo da montanha não haveria luz de lampiões, mas Sifrah conseguiria se virar com o brilho da lua. Era leve, e quase não iluminava, mas hora ou outra o sol voltaria para o topo do mundo e o caminho ficaria claro. Sem um carrinho para levar consigo e a disposição de uma adolescente, Sifrah acreditava que faria o caminho de Américo pela metade do tempo.

Após passar pelo desvio que levaria a Girassol, o frio parecia conseguir penetrar a lã do casaco e esfregar-se no quente corpo. Não era, porém, frio o suficiente para que Sifrah desistisse de sua jornada. As árvores de canto de estrada eram altas e com folhas grandes e afiadas. No inverno muito poucas dessas árvores ainda tinham folhas, mas apenas os grossos troncos e galhos conseguiam impedir boa parte da passagem da luz noturna. Sifrah andava, na maioria das vezes, no escuro, na base da fé de que sabia onde botava o pé.

Soube a maior parte do tempo, e apenas encharcou de neve a sola da bota que usava. Numa curva repleta de árvores, ela não conseguiu ver coisa alguma, e isso resultou em um passo em falso, no qual ela mergulhou o pé esquerdo num buraco longo enchido de neve. Neve esta que se esparramou para fora, liberando espaço para o pé seco de Sifrah.

Ela o retirou, não houve dificuldades, mas andou o resto do caminho com metade da perna esquerda molhada. Quando um começo de sol apareceu, ela não estava mais rodeada por árvores. O caminho montanha acima era limpo, e o branco da neve, mais o brilho do sol, podia tornar alguém cego. Sifrah escalava com os olhos semicerrados. Os passos ficavam mais pesados por conta da inclinação da montanha.

Não era possível dizer as horas, Linda era a Mana que conseguia fazer isso apropriadamente apenas observando a posição de sua sombra, mas Sifrah acreditava que estava perto das nove horas quando começou a ver a caverna. A perna demorou mais algumas horas para secar, mas tão logo estava como no início da viagem.

Sifrah estava parada muito em frente à caverna, encarava-a como se fosse o mais fascinante enigma jamais visto. Seu coração palpitava às pressas, mas não era por nervosismo, longe disso, era por conta da jornada. Ela olhou para os lados e encontrou uma grande pedra, um pouco coberta de neve ainda não derretida. Caminhou até ela e se sentou após espanejar o topo.

Ficou lá por alguns poucos minutos. Seu corpo era jovem, sadio, e recuperou a disposição rapidamente. Sifrah pulou da pedra e subiu o pouco da montanha que restava para entrar na caverna. O gelo estava por toda a parte do lado de fora, mas dentro da caverna não havia nada além de terra e pedra. Na entrada, é claro, além de um tapete branco, no teto havia o que era chamado de estalagmites. Ao entrar, Sifrah tocou algumas dessas flechas de gelo, admirada pela sua beleza.

Sifrah retirou o pergaminho de dentro do casaco e se preparou para qualquer ritual que tivesse de fazer. Ela tinha tudo na cabeça, até onde sabia. O que sentia não era medo, mas mais ansiosidade, impaciência. Ela não poderia, porém, agir com descuido. Era algo complicado o que pretendia fazer, e era até mesmo errado não sentir medo. A confiança estava a mil, e ela sabia que nada poderia dar errado.

O Taar poderia ser grande e forte, mas ela era pequena e ágil. Pelo tamanho do monstro, ele deveria ser lerdo. Sifrah não era exatamente baixa, mas podia correr e esquivar-se melhor do que qualquer um da vila Eckart. A camiseta estava na mão direita, ela a apertou e inspirou fundo, fechou os olhos por algum momento para concentrar-se naquilo que era a sua missão.

A vila Eckart poderia não saber o que ela estava fazendo, e podia também estar longe de algum dia saber, mas ela o faria de qualquer maneira. Não fazia isso para que soubessem seu nome. Poderiam esquecer de Sifrah Mana dois dias depois de sua morte, mas nunca se esqueceriam do feliz dia em que foi descoberto que a oferenda não seria mais necessária.

Por uma última vez, Sifrah inspirou, desta vez para gritar. Soou como um “ei”, mas não importou, pois ela sabia que fora ouvida. O Taar não fizera nenhum som em resposta, ainda, mas era algo dentro de Sifrah que parecia alertá-la do perigo. Ela gostou da sensação. Já era muito ágil, e a adrenalina a tornaria ainda melhor.

O piso pareceu tremer, e algo vinha do fundo da caverna. Havia uma dobra e Sifrah não conseguia ver. Era apenas preciso pegar a adaga e colocá-la… A adaga.

Sifrah olhou para trás, mas ao retornar a cabeça para frente de cara percebeu o gigante que a fitava com olhos cuidadosos. Ela talvez conseguisse correr, mas as pernas do Taar eram grandes, e um pulo dele seria o mesmo que uma grande corrida de Sifrah. Uma adaga de gelo, algo que o livro mencionara e escapara por completo da mente de Sifrah. Quando tanto se quer algo, aquilo que nos impede de conseguir torna-se invisível aos olhos.

Os reflexos de Sifrah eram bons. O monstro investiu contra ela, como um touro, e ela pulou para o lado. Os olhos do bicho estavam fixos em Sifrah a todo momento. Os braços eram grossos e cheios de pelo, o Taar gostava de usá-los certamente por conta das garras afiadas. Sifrah sofreu um corte feio no rosto. Na investida seguinte, ela pulou o braço como se fosse uma corda, e correu um pouco para o longe do Taar, para dentro da caverna. Ela estava com os olhos fixos naquilo que deveria pegar, era a sua única chance.

O Taar começou a correr, e ela também. Ele se inclinou como que para agarrá-la, mas Sifrah o escalou como se fosse uma escada, subindo seu longo braço, apoiando o pé no ombro largo e saltando para o ar, com a fé de que tudo daria certo. A fé que ainda permanecia.

Sifrah não era forte, mas seu salto foi o suficiente para que quebrasse a base da flecha de gelo que pendia do teto da caverna. Caiu bem, com a estalagmite na mão de luta, a direita. A camiseta passou para a esquerda.

O Taar a olhou, e ela não conseguia compreender a expressão em seu rosto, talvez soubesse o que Sifrah conseguiria fazer naquele momento. Talvez fosse medo o que sentia. Ele correu novamente contra Sifrah, e ela fez o mesmo, sem a intenção de escalá-lo.

O grande monstro, porém, prevendo seus movimentos, agarrou os pés de Sifrah e a jogou por sobre o ombro, como se fosse sal derramado. Ele caiu de costas no chão da caverna, e não pareceu ter tomado danos com isso. Sifrah bateu na parede do fundo e caiu de bruços, o barulho da estalagmite quebrando pareceu preencher o ouvido de Sifrah enquanto também ecoava pela caverna.

Caída no chão, ela levantou a cabeça e viu o que havia em sua frente, ainda mais ao fundo. Era uma grande fogueira que esquentava mais três Taar. O Taar com que Sifrah lutara se levantou e andou até o fundo da caverna, junto da fogueira e dos outros três.

Sifrah também se levantou, e limpou o sangue que escorria dos seus lábios com a manga do casaco. O Taar se sentou e olhou para ela, como se soubesse que agora Sifrah não tentaria nada. A garota se aproximou.

Dois desses Taar eram pequenos, como crianças, e outro estava deitado no chão. Da sua perna saía uma grande lança, que a atravessava por completo, como se houvesse sido jogada por um morador furioso. Seus gemidos dolorosos preenchiam a caverna quando o crepitar da fogueira não o fazia. Sifrah ficou surpresa por não ter ouvido aquilo quando entrou. Disse a si mesma que era porque o vento assobiava em seu ouvido.

Aproximou-se da Taar ferida com cuidado, e ajoelhou-se ao lado da perna. Sifrah tocou a lança, e ouviu o rosnar do Taar com o qual lutara. Ela o encarou, e talvez seus olhos tivessem dito algo; ele deixou de grunhir e a olhou a lança.

Sifrah agarrou o cabo e começou a puxá-lo vagarosamente. A Taar choramingava de dor, mas o Taar não rosnou ou tentou impedir Sifrah de continuar. Eventualmente, a lança saiu e Sifrah a jogou para longe. A Taar gemia pouco, e o Taar a fez algum carinho no rosto, para aliviar suas dores.

A camiseta Sifrah havia deixado cair ali perto, pegou-a com rapidez e, como tecido era velho e fraco, não obteve dificuldades em rasgar a parte da frente ao meio. Dobrou a camiseta em um retângulo e a passou debaixo da perna da Taar. Amarrou as duas pontas com muita força quando elas se encontraram de volta.

Ela não podia ter certeza, mas Sifrah acreditava que viu a Taar sorrir após ela terminar aquilo que fizera. Depois que se levantou, notou que noutro canto da caverna estavam todas as comidas que foram levadas, algumas coisas já devoradas. O Taar deitou a mulher no chão o mais confortavelmente possível, e deixou-a perto do fogo para aquecer-se naquele inverno rigoroso. Eles precisavam do frio, mas quando estavam feridos o frio de certeza os pioraria. O calor faria com que a Taar ficasse melhor. E depois… Quem sabia?

Joãozinho estava muito bem agasalhado, sua mãe o cobrira de panos logo pela manhã. Apenas com todos aqueles casacos foi que ela lhe permitiu engatinhar sobre a estrada nevada de Eckart. O inverno não demoraria a acabar, e embora ele nem mesmo soubesse disso, queria aproveitá-lo. Não estava muito frio naquele dia, e o grande sol no céu tinha sua parte nisso.

A mãe estivera junto dele durante toda a engatinhada pela rua, mas agora parara para conversar com a vizinha, que carregava uma cesta de compras. A vizinha a entregou um livro, e depois disso ele não prestou atenção.

Estava feliz, sentir o frio da neve nos dedos, mesmo encobertos, era bom. Ele não percebeu o grande buraco no chão, e se aproximava com rapidez. Seus joelhos eram rápidos no movimento de vaivém por conta das muitas vezes que já praticara antes.

Quando caiu no buraco, Joãozinho não sabia se deveria chorar, e bem verdade que ele não o fez. O buraco não era muito grande, mas poderia escondê-lo da mãe se ele se deitasse e ficasse quietinho. Tinha a forma de uma grande pata, a pata de um animal tão grande que seria impossível existir.

Mas de fato esse animal existia, e Joãozinho o vira, bem pouco. Ao longe, para lá dos portões que decretavam o fim de Eckart, estava um branco total, mas a sombra que as árvores faziam desenhavam a breve silhueta de alguns brancos móveis. Brancos grandes e peludos, eram quatro, dois pequenos e dois grandes, um dos brancos parecia saltar a cada passo, como se estivesse manco. O outro branco, o que também era grande e não mancava, carregava um pano largo nas costas, cheio de algo que Joãozinho não sabia.

Os mercantes conversavam como se o dia fosse como outro qualquer. Recostadas sobre a cerca limitadora de Eckart, algumas crianças maiores que Joãozinho gritavam e acenavam para os brancos. Agora, ele não poderia ter certeza, mas Joãozinho acreditava que o branco com o pano parou, virou a cabeça para trás e acenou de volta. Novamente, ele não tinha certeza, embora se parecesse muito com aquilo.

Sua mãe gritou seu nome, ele ouviu, e seus olhos se voltaram para ela. A vizinha se ajoelhou ao seu lado, gritou para a mãe dele e passou a mão na sua cabeça. Joãozinho riu, e logo sua mãe apareceu e o pegou no colo, mesmo tendo neve em toda a sua roupa.

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