Algumas horas tarde demais

Cinco meses antes, ela havia terminado o relacionamento. Cinco meses antes, a vida dele terminara também. Ele sabia que aquele caso com a garota nova do escritório não levaria a lugar algum. Se algo, ao fundo do poço. Ainda assim, ignorara aquela costumeira voz que palpitava na cabeça. Eu vou me cuidar, ele lhe prometia para abafar o som, vou fazer com que ninguém descubra.

No fim das contas, estivera errado em via dupla. Não havia se cuidado e pegara herpes, que então passara para a esposa. Fazia sete anos desde que haviam deixado de usar proteção e ultimamente ela havia parado de tomar pílula porque haviam decidido que já era hora. De onde viera então uma doença projetada pelos deuses para ser passada especificamente pelo sexo, se transavam apenas um com o outro? Na hora ele ficara paralisado, o suor outrora quente da corrida matinal congelou-lhe o rosto e o peito. Então começou a gaguejar e a partir daí ela já havia compreendido tudo. Se ele ao menos estivesse preparado! Se soubesse que ela lhe perguntaria isso, conseguiria pensar em uma resposta apta.

Ele devia ser capaz de pegar uma herpes labial apenas bebendo da mesma caneca de um colega de trabalho, então certamente havia a possibilidade de pegar uma DST sem o S. Mesmo que ele não tivesse certeza, ela também não era nenhuma expert em saúde, engoliria qualquer desculpa contanto que fosse dita com confiança o suficiente. Havia pego uma sunga emprestada do Santiago, aquele negro alto do RH, quando fora no “churrasco de amigos” e nadara na piscina dele. Sim, certamente era isso, aquele boa-pinta maldito devia transar com mais pessoas em um mês do que ele na vida toda. Mas os “bem-bem-bem” e os “s-s-sabe que eu acho que” da desculpa esfarrapada que não vinha de jeito nenhum jogara tudo por água abaixo.

Cinco anos de namoro, cinco de casados, e tudo acabado cinco meses atrás. Talvez fosse o número do mês que houvesse explodido alguma coisa dentro do cérebro dele. Nunca gostara de maio, também. Em numerais romanos, um V de vitória, mas havia sido uma derrota completa. Serviu outro copo e bebeu num só gole, então serviu um próximo. A bebida estava começando a esquentar.

A perna direita tremia de nervosismo. O revólver sobre ela parecia quase perder o equilíbrio e cair. Será que dispararia se caísse? Ele sempre se perguntou se isso acontecia, mas nunca testou e não era agora que testaria. Não tinha mais tempo para isso. Bebeu outro gole. Estava apenas adiando o inevitável.

Como se ela nunca houvesse vacilado. No primeiro ano de namoro, ficaram separados por três meses após uma briga mais séria do que as outras – ele já nem se lembrava o motivo. Quando voltaram e ela lhe disse que havia transado com o ex-namorado, ele a perdoara. Mas ela não era capaz de perdão. Ela podia ter falhas, ele precisava ser perfeito. Usou o cano do revólver para coçar a nuca. Uma mosca filha da puta voava ao redor dele, espantou-a com o dedo próximo do gatilho. Se pudesse matá-la com um tiro, já o teria feito.

A novata tinha a mesma aura da esposa naqueles primeiros meses de relacionamento, antes de entrarem na rotina. Era bonita, tinha o mesmo loiro dourado, embora essa tivesse um cabelo longo. A mulher sempre mantivera o seu curto. Ele adorava cabelo longo. Talvez tivesse transado com a novata porque era tudo o que ele queria que a mulher fosse.

Estava suando pela axila, dava para ver as partes escuras do pijama listrado que vestira antes de ir dormir. Talvez ainda estaria dormindo naquele momento, na maior das pazes de espírito, se apenas não tivesse feito a merda que fez. Agora já não havia o que ser feito. Ela podia implorar, mas eram algumas horas tarde demais para isso. Ele não mudava de ideia tão facilmente, ela sabia.

Puxou a mão para engatilhar o revólver e derrubou o copo com o resto da bebida, que encharcou o chão perto dos pés. Soltou um palavrão alto e moveu o corpo para o lado instintivamente, mas não precisava se preocupar com a bagunça agora. Ouviu o clique da arma, pôs-se em posição rápido e puxou o gatilho. Como se não fosse nada, uma ação banal. Como foi alto o som. Naquela madrugada distante, qualquer tique de relógio soaria como um tiro. O tiro em si soou como um trovão.

Pegou o copo do chão e colocou-o de volta na mesa. Agora estava vazio. Chutou a bebida para o lado como se fosse fazer algum efeito. Pôs o revólver sobre o líquido que transbordara na madeira. Levou a mão ao rosto como se estivesse acordando de manhã. Esparramou-se na cadeira, soltando um suspiro. O sangue dela se misturava às lágrimas, molhava a bola de pano enfiada na boca, encharcava a corda – apertada com força para que não se movesse, mas não o suficiente para machucar. O que vinha depois? Não tinha certeza. Levantou-se e abriu a janela para entrar um pouco de ar.

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