As madrugadas de quinta-feira

As madrugadas de quinta-feira
Especialmente
São as mais silenciosas

Na cozinha devorada pela escuridão
Ouve-se nítido o brinde seco dos copos molhados
O sibilo da geladeira quando se a abre
O clique da luz interna quando se acende
O baque emborrachado quando se a fecha

A madeira que escorrega no piso
Ao esbarrar na mesa esfarelada
Externaliza o salto do coração
Que olha rápido para o lado
Zune agudo o interior do ouvido
Num silêncio completo que ressoa incessante

Da sombra do outro lado da peça
Estatuada numa surpresa
O estouro duma respiração

Contra melhor julgamento
Também parada no lugar
Não consegue a tempo fugir
Dos passos rápidos do linóleo

Apesar do silêncio abundante
Os cacos de vidro no chão
Não chegam aos vizinhos
Por uma semana completa

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