Carta errada

Mais de um mês desde que chegou
Aqui em casa uma carta de amor
Entregue à pessoa errada
Quando a abri foi por descuido
Pois não notei o número mal escrito
Apesar de eu nunca nada ter recebido
E enquanto lia também não percebia
Que nada daquilo me pertencia

O papel rosa e firme parecia tão estranho
Junto às paredes amarelas daqui de casa
O perfume doce não combinava
Com as flores de plástico da cozinha
A letra cursiva em tinta preta
Tão distante da minha datilografia

Enquanto lia tão alegre ficava
Ao pensar no quanto a escritora me amava
Ainda que me chamasse por outro nome
Que falasse de hábitos que eu não tinha
De olhos verdes através dos quais não via
Do sorriso que eu já não mais conhecia
De um jantar romântico semana passada
Ao qual entretanto não fui convidado
E porém apenas lendo sua carta
Um pouco de cor entrou aqui em casa
E seu cheiro contagiou a mobília

Da escritora conheço tanto
Ela hesita antes do t
Faz um o igual ao a
Assim amor também é amar
Seu agudo é como o til
Que se deita reto como o grave
Apenas dança sua cedilha
Que se transforma em s improvisado
Quando erra na compreensão
O c junto ao l formava um d
Que me atrapalhava a leitura
Enquanto deslizava nos finais de z

Ontem fui à casa correta
E vi sair dela um homem alto
De olhos verdes sorriso bonito
Acompanhado de uma mulher
Que não põe pernas no seu u
E assim parece um outro v

Não entreguei a carta a ele
Nem a passei por debaixo da porta
Pois se ele tem a pessoa
Me permito ficar com a caligrafia
Já que a conheço melhor
Do que ele jamais a conhecerá
E do que eu jamais a conhecerei.

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Laura
Laura
15/03/2020 20:04

Adorei! Quero ler mais poesia…

Larissa
Larissa
01/12/2019 15:24

Muito bonita, mas prefiro as suas crônicas, e textos de coisas que acontecem no seu cotidiano.