Dois copos sobre a mesa

O chão na outra casa era mais frio, não tinha um carpete verde sujo pelos inquilinos anteriores. Calçava meias finas. Seus passos eram lentos para não chamar atenção; sentia algumas migalhas de pão ou grãos de poeira no chão de madeira que às vezes reclamava com um rangido inoportuno. Através da janela de seu apartamento, tão próximo àquele, havia visto a cena.

Não conhecia o vizinho, não sabia seu nome, nunca o vira na rua, indo ao supermercado, ou lhe dissera bom dia ao se esbarrarem numa manhã de quinta. Mesmo que uma eventualidade os levasse a cruzarem caminhos, o suicídio do vizinho seria impossível de prever. Na madrugada, deslizava até o banheiro quando durante um bocejo olhou pela janela e assistiu ao espetáculo final da vida humana. A luz da sala de estar do observador estava desligada; o outro não notou que tinha companhia para seu último momento íntimo na terra.

Ainda em pé, assistiu ao homem verter num copo uma cerveja cuja garrafa brancava de gelo. O vizinho tomou alguns goles enquanto observava o interior de sua casa, em contemplação, a calma doméstica após uma jornada extenuante. Pegou um frasco marrom e despejou o conteúdo incolor dentro do amarelo espumante. Fez círculos com o copo, como se houvesse adicionado açúcar ao suco do café da manhã, mas não tivesse colher. Enquanto o misterioso remédio se misturava à cerveja, ele arrancou audivelmente a folha pautada de um caderno pequeno e começou a escrever. Embora o arrastar do lápis sobre a folha devesse emitir algum som, era imperceptível demais para chegar ao apartamento ao lado; o que se ouvia, porém, era uma imitação fictícia proposta pelo cérebro na tentativa de recriar o rabisco sonoro.

Os pés dentro da meia fina congelavam, mas o voyeur não se moveu para pegar a pantufa ao lado da cômoda. O pé direito roçou no esquerdo numa fricção insuficiente. O vizinho bebeu o restante da cerveja num só gole, então pousou a taça mortal sobre a mesa de centro e se levantou apressado, como se se arrependendo do que fizera, ou ansioso pelo resultado. Andou de um lado para o outro, os braços quase cruzados, a mão direita tamborilando o bíceps esquerdo. Interrompeu sua marcha, curvou-se talvez para se sentar no chão e caiu de frente com um baque surdo no piso. Não estivessem as duas janelas abertas, não teria ouvido o som. Da sala de estar continuava a assistir a cena imóvel. Sem pressa, mas com o coração batendo o mais rápido desde que nascera, vestiu-se no quarto e pegou algumas coisas, dentre elas uma longa prancha de passar roupas que ainda parecia nova. Deitou-a sobre os parapeitos das janelas e engatinhou até o outro apartamento sem medo de cair, embora as mãos enluvadas não agarrassem bem as laterais e ela rangesse como se estivesse prestes a ceder. Mas não pensava em si naquele momento.

O interior da casa do outro parecia intelectual. Da sua sala de estar, não conseguia ver a estante de livros que ficava entre o salão do vizinho e a cozinha. Ao lado, um toca-discos agora girava mudo, mas antes devia reproduzir um áudio tão sutil que não perceberiam mesmo os estudantes de música que sempre lhe importunavam ao ensaiar. A poltrona ainda tinha uma indentação no lugar onde o vizinho havia descansado.

Pôs uma das cadeiras da cozinha frente a poltrona, num ângulo, para parecer uma conversa entre amigas. Pegou o vidro de remédio sem interesse em saber seu rótulo, guardou-o no bolso do casaco. Arrancou outra folha do caderno pequeno e prendeu o lápis em seus dedos enluvados. Como era interessante sua carta de suicídio; não culpava ninguém expressamente, mas um daqueles personagens era claramente o motivo maior que o levou àquele estado deplorável. Nas últimas linhas, pedia desculpas à mãe; não queria que ela chorasse, muito menos que se culpasse ou pensasse que havia algo que poderia ter feito. Se não pedira ajuda a ninguém, era porque sabia ser fútil. Palavras sinceras que facilmente mostrariam uma falsidade maliciosa, tivesse ele dado o primeiro passo.

Copiou o bilhete com cuidado, tentando imitar as imperfeições presentes na caligrafia, mas sempre sabendo que mesmo seu melhor trabalho não enganaria ninguém. Pousou a cópia no mesmo lugar da original, que amassou e guardou junto do remédio. A carta, queimaria; o líquido, jogaria no vaso sanitário; mas ainda não sabia o que fazer com o vidro. Enterraria, possivelmente, em algum lugar longe dali e fora de sua rota comum. Ou jogaria no rio após remover o rótulo e queimá-lo junto da carta.

Pegou outro copo na cozinha e bebeu da mesma cerveja do vizinho; ainda gelada, mas as partículas de gelo da garrafa já haviam derretido e feito uma poça pequena sobre a mesa de centro. Seus lábios não tocaram o vidro, pairou a taça um pouco acima da boca e a gravidade ajudou-o a beber. Limpou com a manga do casaco o risco molhado que deslizou pelo queixo. Deixou seu copo junto ao do outro, próximo à cadeira que havia colocado ali; eram dois amigos distraindo-se da dura vida. Tudo parecia levar ao suicídio, mas havia dois copos sobre a mesa e uma substância venenosa na taça do vizinho.

Despejou o restante do líquido dourado na pia da cozinha. Procurou outra cerveja no congelador, em vão. Era um homem que sabia não ter tempo para degustar de uma segunda ou terceira garrafa. Ligou a torneira para enxaguar todos os vestígios da bebida na pia. Os dois amigos haviam bebido tudo antes do ocorrido. Destravou a porta de entrada enquanto verificava se a touca de cozinha continuava bem presa no cabelo.

Observou o cadáver de cima. Do outro bolso do casaco, retirou um frasco contendo alguns poucos fios de cabelo preto. Um ano antes, um colega do antigo trabalho deixara seu pente no banheiro após o almoço. Pegara a evidência falsa com a manga da camisa e fora à farmácia comprar algo em que poderia colocá-la. Deixara a mão dentro do bolso da calça e apenas a retirara quando no banheiro da empresa, para colocar no frasco. No final de semana seguinte, levara a calça ao brechó que a igreja da cidade vizinha fazia todo mês. Faria o mesmo com a calça, a jaqueta e a camiseta que usava naquele momento, mas queimaria a touca, as luvas e as meias antes de se livrar dos restos. A prancha também seria útil ao retornar para sua própria sala de estar, mas não sobreviveria mais de um dia. Ainda não tinha certeza de como se livraria dela, talvez a vendesse barato, talvez a deixasse largada em algum canto de estrada. Despejou o conteúdo quase invisível do frasco sobre o corpo. A polícia acharia uma pista que não levaria a lugar algum, por fim perceberia que fora enganada antes de arquivar o caso, pois o culpado havia desaparecido sem deixar pistas verdadeiras. Um crime perfeito, pois nunca acontecera.

Novamente em seu apartamento, puxou a prancha. Testou a janela de diversos ângulos, mas não conseguia ver o corpo. Se ficasse na ponta dos pés e bem próximo ao parapeito, conseguia notá-lo, mas não era algo que faria sem razão. Assim, ele não teria de ligar para a polícia ou precisaria se preocupar caso fosse interrogado. Mesmo tão próximo, ninguém conseguiria perceber o que havia acontecido no apartamento ao lado.

A polícia apareceu dias depois, quando um amigo do vizinho foi até sua casa e notou o ocorrido. Chamou as autoridades no exato momento. O observador havia deixado a janela fechada nos últimos tempos, mas notou a viatura perto do condomínio ao lado. Conversou com um vizinho sobre o que estava acontecendo, descobriu qual era o andar em que o assassinato havia acontecido. Uma tragédia dos tempos modernos.

Na sala de estar de casa, abriu a janela e observou a movimentação dentro do apartamento. Tinha os olhos de um vizinho curioso; o do andar de baixo também tentava olhar, mas era ele quem tinha a melhor visão. Quando um policial o notou observando o corre-corre dos homens da lei, aproximou-se da janela. Deu-lhe bom dia, perguntou se conhecia o homem que morava ali. Não conhecia, não tinha contato com ele apesar de morarem tão próximos, apenas ouvia bossa nova vindo dali de quando em quando. Não, não ouviu nada de estranho nos últimos dias. Como tem feito frio e não entra sol por aquela janela, tem deixado ela fechada ultimamente, o que havia acontecido? Ah, não podia dar detalhes porque a investigação ainda estava em andamento. Como parecia ser um caso de homicídio, pediu desculpas por fechar a veneziana, mas não podia deixar que continuasse observando. Talvez fosse interrogado mais tarde, questão de protocolo. O vizinho desculpou-se, disse que entendia e os aguardaria. Desejou-lhes um bom trabalho. Fechou a janela de casa e preparou um café preto.

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Laurinha
Laurinha
29/03/2020 10:36

O isolamento social da vida das grandes metrópoles… fico a imaginar como sairemos depois desse protocolo da OMS; solitários e ao mesmo tempo vigiados.