Inferno no Ártico, de Cláudia Lemes

Meses atrás, apareceu no meu Facebook uma postagem sobre o financiamento coletivo de Inferno no Ártico. Havia muito tempo que tinha na minha lista de compras outro livro de Cláudia Lemes, Um Martíni com o Diabo, mas não pude resistir ao valor baixo da recompensa e à sinopse desse novo romance da autora.

Informações

Título: Inferno no Ártico

Autora: Cláudia Lemes

Editora: Independente / 2018

Páginas: 308

Sinopse: Assassinatos bizarros abalam a cidade de Barrow, Alasca, durante o período de dois meses de noite polar. A detetive brasileira Barbara Castelo desconfia que seu primeiro caso de homicídio tem ligações com ocultismo, e precisa superar suas diferenças com o parceiro, Bruce Darnell, além de sua fobia do escuro, para encontrar o serial killer antes que ele consiga completar sua missão macabra.

Logo no início da leitura, já percebi a qualidade da escrita, mas não tinha ideia do quão melhor ela ficaria. Admito, a ambientação no Alasca fez com que eu torcesse o nariz de início, pensando ser um sintoma de “livro que se passa no Brasil não é bom”, mas a noite eterna que acomete Barrow não poderia cair melhor: tanto para o tema sombrio da história, quanto para o próprio Executor e seu plano sinistro.

A temática satanista da trama foi também utilizada na criação do próprio livro. Não falo apenas das páginas pretas com o nome de um demônio como título, nem da diagramação diferente do último. Ao começar a primeira leitura, percebi um toque que teria chamado de “amador”: o texto iniciava no lado esquerdo, quando o costume é o direito. Já no segundo, percebi o que estava acontecendo, mas só fui confirmado quando notei que a página 120, dentre outras, estava em branco justamente para iniciar o capítulo seguinte na esquerda.

Dentre outros possíveis exemplos, a mão canhota foi por muito tempo ligada com o demônio, havendo histórias de canhotos proibidos de usá-las durante seus anos escolares. Não se trata da idade média, mas mesmo no Brasil, se falar com certos pais ou avôs, ouvirá um conto sobre isso.

Admira-me bastante que a Netflix não tenha comprado os direitos de adaptação dessa obra antes mesmo de ela sair da gráfica, pois ela tem tudo para virar a próxima série de sucesso da produtora. A história, e mesmo a escrita, me fez pensar em livros policiais best sellers que são publicados no estrangeiro e trazidos para cá. Fosse escrito por uma autora norte-americana, Inferno no Ártico seria cobiçado por editoras e produtores, pois o sucesso seria evidente e imediato. Podemos coletivamente entristecer ao pensar que as inúmeras adaptações talvez não aconteçam, mas devemos nos orgulhar ao vermos um romance tão bem escrito sendo publicado por uma autora brasileira.

A leitura fluía tão bem que, durante muitas páginas, pensei não ter o que pôr de crítica à história nessa resenha, mas algumas questões me deixaram com a pulga atrás da orelha no transcorrer do livro: o modo como a detetive Barbara consegue digitais, por exemplo, e ainda por cima a certeza que ela possuía de que homens apoiam a mão na parede ao urinar; após tanto trabalho, Barbara descobre a identidade do Executor, porém parece estragar a vantagem que consegue sobre ele ao deixar-lhe um bilhete na porta da própria casa. Como não houve explicação, me pareceu um tanto esquisito, se não até mesmo um clichê do gênero. Os monólogos do Executor foi outro detalhe que me incomodou, especialmente por não serem necessários, visto que ele falava consigo mesmo. Nada mais fácil do que usar a ferramenta que literatura possui sobre o cinema: o monólogo interior.

Recomendo a todos a leitura de Inferno no Ártico, especialmente aos leitores de romances policiais que estejam decepcionados com a falta de bons livros no gênero. É uma obra para ninguém botar defeito*.

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*Exceto, talvez, no final, que me fez retirar uma estrela do que seria uma nota perfeita.

Se tiver interesse em outro tipo de escrita, recomendo alguns contos bastante curtos:

A chegada do circo pela manhã

Na jaula

Ou mais longos:

Dois gritos vindos do sótão

Olhos de esclera dourada

Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.