No gramado, ao anoitecer

Desastres não acontecem em cidades pequenas. Quando um de fato surge, não sabemos o que fazer, não fomos treinados para a eventualidade improvável, mas possível de acontecimentos dos mais variados.

Eu brincava com Gabriel, nosso vizinho, sempre que podia. Não se pode dizer que ele “vivia doente”, pois não realmente vivia. O que possuía eram dias bons que iam e vinham ao seu bel-prazer, às vezes chegavam e ficavam por semanas, até mesmo meses, fazendo com que todos se esquecessem dos problemas passados, então a sã saúde partia e parecia ter feito as malas, se instalado em um lugar distante, sem planos de retorno. Durante os anos em que ele morou logo ao lado, o último caso era o mais frequente. Após semanas de cama, retornava ao sol como um albino recém-chegado a uma praia carioca. Mesmo aos sete anos, eu temia que ele fosse se queimar demais e, quando nos encontrávamos, preferia ficar à sombra, mas compreensivelmente o menino ansiava a liberdade ensolarada, não o desespero abrumado que o lembrava de seu quarto, cuja janela dava para a parede nua da outra casa vizinha, tão colada na dele que impedia a passagem dos raios de vitamina D.

Meu aniversário fora duas semanas antes e meus pais fizeram uma festa para os colegas de escola, parentes e amigos. Gabriel viera, estava bem naquele dia. À noite, quando todos haviam ido embora, abri o restante dos presentes e brincamos até que nossos pais encerraram a conversa. Meu padrinho estava viajando, mas telefonara para me desejar feliz aniversário e prometia levar-me um bom presente da cidade em que estava. Chegou duas semanas depois com um embrulho na mão. Era um pacote de presente vermelho metálico, cheio de dobras, a abertura embrulhada não com o lenço de sempre, mas lacrada com uma fita adesiva transparente que me foi grande inimiga. Agora reconheço isso como sinal de que não conseguira reatar o relacionamento com minha madrinha.

Não era surpresa que fosse um carrinho de brinquedo, já que fora o que eu mais ganhara, pois era aquilo com o que eu mais brincava. Um carrinho de metal amarelo. Eu tinha alguns parecidos, mas aquele era maior, fiquei impressionado. Devia ser uma réplica, mas não saberia dizer de qual. O que me vem à cabeça é um carro antigo, mas podia ser novo na época. Era pesado, mas rodava bem, fazendo o som característico dos companheiros menores. Queria mostrar ele ao Gabriel. Como eles ficariam conversando em casa, disseram para não irmos longe e voltarmos antes do anoitecer.

Não precisei esperar muito tempo depois de apertar a campainha, a mãe dele abriu a porta e perguntei se ele poderia sair para brincar. Apesar de ele ter estado bem durante meu aniversário, estava de cama novamente. “Posso ir no quarto dele?”, perguntei. Mas a doença da vez era catapora, e estava demorando para ir embora, então era melhor não entrar em contato. Na escola, uma de minhas colegas havia faltado uma semana de aula pela mesma razão. Ela também estivera na minha festa de aniversário. Apenas pedi para ele ir lá em casa quando estivesse melhor.

Não queria voltar para casa ainda, então andei pela calçada enquanto o carrinho de brinquedo rolava verticalmente pelas paredes e muros. Ele precisava fazer longos saltos quando havia vãos, mas que eram certamente menos arriscados do que algumas das manobras do irresponsável motorista. O som do motor, estranhamente, tinha voz de menino, assim como os choques na pista no fim do salto, o vento correndo pelo vidro entreaberto, as guinadas que ninguém, nem mesmo o condutor, poderia prever. Quando cheguei a uma parte da quadra sem paredes por perto, o carro começou a andar pelo meu braço, silencioso, pois eu já não tinha mais saliva.

A entrada para uma das casas parecia um beco misterioso que levaria a algum lugar desconhecido e, quem sabe, mágico. A casa fora construída ao fundo, no espaço que ficava entre as vizinhas, não era tão diferente das outras, tamanho normal, uma varandinha que dava para um pátio gramado. O caminho do beco, de pedra brita e com duas linhas mais claras e achatadas, conduzia à garagem, um carro vermelho ainda estava do lado de fora, como se houvesse a possibilidade de ir ao mercado. Não era uma moradia bem protegida, mas, considerando o quão escondida estava, não devia ter importância. Cheiro de poeira e grama fresca, não era bom, um sopro que entrava no nariz rápido demais, sem ser convidado e impossível de barrar. O pouco sol do fim da tarde fazia o muro lançar uma sombra no gramado já escuro. Havia um homem deitado no gramado; ao lado dele, um rastelo caído e um montinho de grama. Talvez fosse sua posição desconfortável, já que não conseguia perceber muito bem seu rosto, mas sabia que não estava descansando após um longo e cansativo trabalho. É difícil dizer quando foi que pensei “esse homem tá morto”, mas não deve ter sido muito depois de vê-lo.

Imagino que tenha sido um ataque cardíaco. Deixei meu carrinho cair nas pedras da trilha para a garagem, dei meia-volta e estava quase saindo do pátio quando voltei pegar o brinquedo. Olhei uma última vez para o homem. Não muito gordo, cabelo presumidamente preto, já que não conseguia vê-lo na escuridão crescente, camisa clara, bermuda escura, um chinelo de dedo branco no pé, o outro virado para baixo na grama. Mesmo que mínima, havia ainda a possibilidade de salvá-lo com uma massagem cardíaca ou cuidados médicos de pessoas competentes. Se eu tivesse corrido de volta para casa e avisado meus pais, talvez tudo teria acabado bem.

Mesmo que não fosse possível trazê-lo de volta à vida, pelo menos teria poupado a família de encontrá-lo naquele estado. Talvez a filha estivesse em frente a escola, os olhos buscando o carro vermelho do pai atrasado. Pouco a pouco, os colegas de classe vão-se embora, as amigas não podem mais esperar junto dela, mas os alunos dos outros anos, que ela porém não conhece, ainda aguardam seus pais. Então mesmo esses ouvem um “como foi a aula?” vindo abafado de dentro do sedã de janelas fechadas. Em algum momento, ela desiste. Enquanto caminha a longa estrada de volta, reclama do pai. Vai fazer um escândalo, ah, se vai. Não podem dizer que é injustificado. Ela sempre ajuda, sempre é responsável e cuida para não estorvar o pai, que não é nem mesmo capaz de pegá-la na escola. Ao chegar enfim, suada e pisando firme nas pedras britas da entrada, vê que o homem do qual reclama jaz morto no quintal, perto dele o rastelo com o qual recolhia a grama recém-cortada, o chinelo de dedo atirado ao lado como se houvesse tropeçado quando virou-se para pegar a chave do carro.

Não corri de volta para casa, caminhei. O carrinho estava firme na minha mão, para não cair novamente, mas não brincava com ele. Minha mãe estava na frente de casa, meu pai e padrinho voltando da direita, cada um de um lado da rua. Quando ela me viu, correu até mim, me deu um tapa no traseiro e começou a brigar. Não ouvi muito bem o que ela dizia, mas entendi que estivera preocupada porque eu saíra de casa havia uma hora e meia, mas pensei que estivesse inventando aquilo e a razão verdadeira fosse outra, já que não fazia nem vinte minutos desde que eu falara com a mãe do Gabriel. “Já pra dentro”, ouvi em meio a outras palavras, pois meus ouvidos estavam acostumados àquelas. Entrei em casa e brinquei com o carrinho na sala enquanto meu pai dizia para minha mãe se acalmar e meu padrinho não sabia exatamente o que fazer.

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