O Homem Maquinado

Naquela noite, Gerard Pereira estava em casa. Geralmente não conseguia dormir por conta do medo, mas sempre tomava pílulas que, aterrorizado ou não, deixavam-no sonolento. As pílulas haviam acabado, ele precisaria pedir uma prescrição nova para o Dr. Montgomery.

Estava sentado na poltrona da sala lendo um livro quando anoiteceu. Ao levantar os olhos das páginas, percebeu que não vinha mais luz da janela atrás da poltrona, era apenas a lâmpada branca de brilho forte que iluminava a casa. Ainda assim, não iluminava toda a casa. O corredor para o terceiro andar estava escuro, e do primeiro andar não se via nada, apenas os primeiros três degraus da escada. Ele estava preso no breu da escuridão.

Seu peito encolheu, seu coração foi esmagado pelos próprios ossos. Ele olhou para trás e viu o céu estrelado. Deu-lhe arrepios. Sem se levantar da poltrona, empurrou-a até a parede e deixou o livro numa mesinha ao lado, junto do telefone residencial. Puxou os pés e deixou-os sobre a almofada em que sentava, encolheu-se e esperou, como se estivesse disposto a aguardar o sol voltar, mas ele mesmo sabia que hora ou outra precisaria piscar os olhos. Não sabia para onde encarar, pois alguém poderia aparecer de qualquer lugar. Se não alguém do governo, alguém deles. Os filhos da mãe que o deixaram naquele estado.

Depois de um indecifrável tempo encolhido, o telefone tocou. Era um toque alto que, naquele momento, foi também aterrorizante. Gerard encarou a vibração do telefone com um olhar suspeito, mas por fim percebeu que não havia motivos para se assustar com aquilo. Devia ser apenas outra repórter querendo uma entrevista. E Gerard daria uma, naquela mesma hora, tanto para passar o tempo, quanto também para passar a mensagem. Eles precisavam saber.

Gerard tirou o telefone do gancho, era um daqueles modelos antigos, de cor vermelha brilhante. A voz que ouviu era passiva, calma, mas também um pouco falsa, como se o homem do outro lado da linha lesse de um papel.

– Senhor Gerard Pereira – ouviu, concordou com uma voz vacilante. – Sou do Grupo de Ufólogos Estudiosos de Fenômenos Inexplicados, a GUEFI, e gostaria de conversar com o senhor sobre o seu avistamento. Será que seria possível conversarmos?

Perfeito. Aqueles que um dia considerou malucos eram agora os únicos em quem confiava. Os ufólogos tinham várias revistas, e mais da metade delas lhe ligara em apenas uma semana. As outras ainda estavam ligando, todas querendo o máximo de informações possíveis.

– É claro. Pode passar aqui para conversarmos – arriscou. Era muito melhor quando eles iam até a casa dele, pois assim possuía companhia por algum tempo. O medo ficava em segundo plano, e Gerard tentava atrasar a entrevista o máximo possível.

– Ótimo – foi tudo o que o homem disse.

Gerard ouviu o clique do outro lado, mas pensou que o outro ainda estivesse na linha, pois ouviu algo. Instantes depois percebeu que o som não vinha do telefone, mas da própria casa. Alguém subia as escadas. Será que podia ser o homem do telefone? Mas ele nem batera na porta. E não… não podia ser eles. Eram eles? Gerard não sabia. Não saber, não ver era o que mais o aterrorizava. Um comum gosto metálico chegou à boca.

Quando o homem apareceu, não conseguiu gritar, não tinha voz para isso, mas encarou-o sem parar. Sentia o calor das lágrimas caindo sem parar pelo rosto. Sua expressão dizia tudo, mas o homem não pareceu se importar. Será que ao menos podia ver que ele chorava? Seus olhos grandes estavam fixos nos de Gerard. Eram olhos monstruosos, e o velho tinha certeza de que não havia cílios ou sobrancelha. Ele também não piscava, não devia ter pálpebras.

– Olá, Gerard – o homem disse. Gerard percebeu que não era a voz de leitura chata, mas sim uma voz metálica, robótica. Como se algum mecanismo no homem estivesse falando em voz alta. A boca, porém, se movia a cada palavra dada, mas de modo falso.

Gerard não falou nada. Sua voz vinha ficando rouca. Não tinha energias para gritar, mas a boca ainda estava aberta num berro mudo. O homem estava parado em frente à escada que dava para o primeiro andar. Vestia calça, sapatos e terno pretos. Sobre uma camisa branca ficava uma gravata também preta.

Não podia ver direito a cabeça do homem porque ele usava um chapéu da mesma cor do resto do traje, mas entendia que ele era careca. Sua pele era um pouco rugosa, embora sua aparência fosse de um jovem de trinta e cinco ou quarenta anos. Apesar de tudo isso, o que mais dava medo era a voz robótica e passiva.

– Percebemos que tem falado muito sobre o seu avistamento de um OVNI. Aconteceu na sua casa?

Gerard assentiu sem tirar os olhos do homem.

– Pedimos para que pare de falar sobre o que viu. Estamos entendidos? Você está se mostrando como um maluco. Ninguém além dos ufólogos acredita em você, Gerard. – Ele pronunciou como “jerárdi” em vez de “gêrrard”. Isso o convenceu de que era um programa, a boca apenas reproduzia.

O homem estava se virando para ir embora, mas Gerard recuperou a voz rouca e fraca.

– Bem útil para vocês. Se alguém fala que vê um disco voador, todo mundo vai achar que está ficando maluco. E no futuro se alguém vai repetir a notícia vai ser apenas em algum vídeo da internet que fale sobre ficção científica ou teorias de avistamentos.

O homem virou-se, mas não disse nada, apenas observou. No silêncio, Gerard ouviu algo como maquininhas minúsculas fazendo seu trabalho. Mas talvez fosse apenas seu ouvido o enganando, Deus sabia que isso acontecia aos montes hoje em dia. Mas os olhos, nunca!

– Eu não preciso de óculos – continuou. – Sei o que vi. Estou muito bem de vista, e mesmo que estivesse mal, seria impossível não ver.

– Você. Não. Viu. Nada – falou cada palavra como se fosse de uma frase separada. – Você. Ficará calado a respeito do que viu.

– Decida-se, homem – atreveu-se a levantar a voz. – Vi ou devo ficar calado sobre o que vi?

– Você. Vai. Ficar calado.

– E se eu não ficar?

– Ninguém acreditará em você.

– Então não tem motivos para me calar. Se ninguém vai acreditar em mim, por que não posso falar sobre o que vi? Não é você quem tem que comprar remédios para eu dormir, então não é você quem vai me dizer o que devo ou não fazer.

O homem girou a cabeça – e o corpo – para observar o local.

– Ninguém. Irá. Sentir. Sua. Falta.

A vontade de chorar voltou a Gerard. O que aquele homem faria? Ele não sabia, mas não queria ficar sabendo. Do mesmo modo, não queria ser calado. Aquele lá não devia ser do espaço. Ele era da terra, mas Gerard não sabia a razão para ter essa crença.

Foi a gravata que o denunciou. Era a exata mesma gravata que um funcionário da ADINE estivera usando no primeiro dia das notícias, quando vários jornalistas apareceram para fazer perguntas. Aquela memória fotográfica filha da puta finalmente serviu para alguma coisa.

– É sigla para o quê mesmo? – perguntou. – Administração Internacional do Espaço? A sede não é na Bélgica?

O homem encarou Gerard sem nada dizer. Por fim, deu alguns passos para a frente, mas a voz continuou no mesmo tom passivo.

– Você não dirá nada sobre o que viu – informou. – Preciso ir embora, minha energia está acabando.

Ele se virou e começou a descer as escadas. Gerard ficou encolhido na poltrona, com o queixo tremendo. Quando o galo cantou, ele dormiu.

2 Replies to “O Homem Maquinado”

  1. Ótimo conto, queria saber o que ele viu ç.ç

  2. Mt show … Bem loco o conto 😀 currtiii

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