O marceneiro do outro lado da rua

Agradeço os elogios que recebi dos leitores de meu livro de memórias. Não esperei receber respostas positivas. Agradou-me saber que os episódios a respeito de meus vizinhos de infância foram prazerosos de ler. Embora tenha trabalhado neles por longas datas, tinha em mente que não incluiria um deles pelo mero motivo de não pertencer junto a histórias doces do meu tempo de criança. De todo modo, é uma história que acho deveras interessante e julgo ser também uma leitura prazerosa, apesar do seu fim. Agora, no auge da idade, sei que os participantes envolvidos não terão a oportunidade de contá-la, especialmente a um público tão grande quanto o que me foi concedido pelo jornal cujas páginas tomo emprestadas.

O leitor das minhas memórias vai se lembrar que, embora tenha vivido na mesma casa até os 25 anos e contado histórias a respeito dessa época, pulei meus 19º e 20º anos. Esse vão na narrativa não foi, como o leitor deve agora perceber, por acidente ou pela falta de episódios suficientemente interessantes para entrar no livro.

Nessa época eu já havia me mudado do quarto pequeno para o maior, após a ida de meu irmão mais velho para a Inglaterra. Nas minhas memórias, já escrevi sobre o marceneiro que morava logo ao lado de nossa casa, o construtor da minha invejada estante de livros. Seu trabalho não foi barato e, se bem me lembro das cicatrizes nas suas mãos quando pude ver o móvel e mesmerizá-lo pela primeira vez, ele tampouco foi simples. Em um dia de outubro, o trabalho estando pronto, o marceneiro chamou meus pais e eu e apresentou-nos nossa nova mobília. Ela era, mais que um presente de aniversário, uma tentativa de preencher o grande quarto onde já vinha dormindo havia algumas semanas: meus móveis, sempre pequenos para caberem no antigo, pareciam minúsculos no novo. Eu adorava aquele cômodo e sempre o invejara. Na minha posse, foi lá onde passei noites com algumas namoradas, mas essas são outras histórias que não pus nas memórias, e o leitor deverá me perdoar por não as comentar aqui. O episódio que narro tem pouco a ver comigo e tudo a ver com nosso vizinho.

Em outubro, quando concluiu a estante, ele chamou dois garotos fortes moradores do bairro para carregá-la até meu quarto. O marceneiro estava junto durante a instalação. Parecia mais nervoso com a possibilidade de um arranhão do que eu ou minha mãe, embora ela se preocupasse com as paredes da casa. Acompanhei a subida dos garotos e disse-lhes onde depositar minha nova preciosidade. Tudo feito, nosso vizinho deu uma nota de dez para cada um e agradeceu-lhes com um sorriso e um tapa na boina que usava.

Quem sabe ele tenha notado a grande janela que vinha de brinde com o quarto. Não posso afirmar e, mesmo que a tenha visto, possivelmente não lhe teria passado pela cabeça que através dela eu poderia ver o interior da sua casa, quando as janelas dela estavam abertas, ou do seu estúdio de marcenaria, por conta do teto de vidro que lhe cobria a metade. Em algumas noites de insônia, perguntei-me se ele teria refletido sobre isso e se teria feito o que fez onde fez justamente por tê-lo em mente nos seus últimos momentos. Mas, lembrando-me do modo como ele sorriu e limpou uma mão na outra apesar de estarem limpas antes de sair da nossa casa, creio essa possibilidade ínfima.

Se os leitores leram bem meu livro, perceberam que nossa vizinhança gostava de fofocar, como é possível que todas as vizinhanças gostem, em especial em cidades onde não há movimento turístico, poucas visitas de parentes de fora e onde todas as pessoas já se conhecem. Não seria novidade dizer que Julieta, da casa amarela antes da esquina, tinha um caso com Nico, o vizinho da frente, muito mais novo do que ela. Tampouco causaria escândalo dizer que o diretor da escola municipal comprou um carro novo apesar da condição das carteiras estudantis. Nem mesmo quando Roberto Garcia Gomes foi preso por um assalto a vizinhança abriu a boca para exclamar surpresa, apesar de sua impecável reputação até o momento das sirenes.

Assim sendo, é de se imaginar que vez ou outra as comadres locais discutissem algo que logo se tornava o assunto do momento pela mera carência de fofocas. Dois vizinhos meus, cujos nomes prefiro não revelar, foram vítimas dessas conversas. Eram dois irmãos bastante próximos, já além da adolescência, mas que nunca encontraram alguém. Naturalmente seu relacionamento ora ou outra seria comentado. Em um dia calmo de julho, os irmãos descobriram que parte da vizinhança pensava que eles fossem amantes. Não eram meras fofocas de pessoas mais velhas, mas a conversa estava tão enraizada e tão fundada em um conceito evidente, a proximidade dos dois, que ela foi prontamente aceita pela comunidade. Quando souberam da história, não havia o que fazer, embora tenham tentado convencer as pessoas de que aquilo não passava de uma mentira.

O relacionamento dos dois mudou após isso, como não é de se surpreender. Então a proximidade outrora incriminadora desapareceu como se arrebentada por uma tempestade de setembro. O mais velho não demorou para encontrar um emprego fora da cidade e partir para nunca mais voltar. Como sempre acontece com esses assuntos, a fonte principal é um elemento ambíguo e fosco do qual não podemos ver sequer uma silhueta. Muito gostaria de perguntar o que essa fonte pensou quando soube da fuga do irmão, e se sentia-se mal por ter arruinado um relacionamento fraterno; perguntaria ainda se sabia ser mentira desde o início ou se havia de fato uma desconfiança; além disso tudo, gostaria de saber se fora ela quem começara ou ajudara a espalhar o assunto a respeito do marceneiro que era nosso vizinho.

Na época em que me entregou a estante, seus únicos problemas talvez fossem os calos nas mãos, as farpas que o incomodavam enquanto trabalhava e algumas brigas com a mulher. Esse cenário mudou não da noite para o dia, mas de um mês para o outro. Meu amor de infância era filha desse casal, uma bela moça loira e alta, de pele bronzeada e corpo esculpido por Deus. Não apenas apreciava sua beleza como pude vê-la aumentar e desenvolver-se mais a cada dia. Por pouco não namorou meu irmão, e se o tivesse feito poderia vê-la ainda mais. Tal qual ele, ela saiu da cidade, nunca fiquei sabendo o que lhe aconteceu, se fora trabalhar ou estudar, mas ainda a via periodicamente, quando nos meses de férias ela voltava para o lar familiar, ficando por uma semana ou duas, saindo quase todos os dias com a mãe para fazer compras e visitar familiares, ou saindo com as amigas de infância. Nunca ousei me aproximar dela, mesmo quando minha voz já havia engrossado, meus músculos aumentado, quando fiquei mais alto do que ela e meu irmão, quando uma barba apareceu e quando as garotas da escola começaram a querer falar comigo sem que eu precisasse ir até elas primeiro. Enfim, a partida da filha talvez houvesse sido um golpe tanto para a mãe quanto para o pai, e apenas o primeiro para ele

O golpe mais forte acredito que tenha sido do final de um mês de abril, quando eu tinha dezenove anos. A esposa teve o que foi reportado como um ataque cardíaco, embora o marceneiro mesmo estivesse resoluto a não comentar. Foi algo revelado pela equipe médica. Ela foi enterrada dois dias depois, o velório sendo no primeiro. Nós não éramos próximos da família, nossa única ligação era a estante e a paixão que eu tinha pela filha do casal, mas como vizinhos e bons samaritanos fomos dar nossos pêsames ao viúvo e sua filha, que estava desesperada, perdida entre o choro e a semiconsciência do ocorrido. Ele não estava no mesmo estado da garota, e tentava de seu modo consolá-la, mas percebi que ele não sabia como o fazer, como se suas mãos ásperas fossem incomodar a garota e portanto ele as guardava para si. Talvez nesses dois dias algum rumor já houvesse aparecido, cochichado no fundo da sala, escutado por um ou dois. Após o enterro, ao qual não fomos, a filha saiu da cidade imediatamente.

Do alto da minha janela, já pude perceber uma mudança na rotina do marceneiro. Suas horas de trabalho não acabavam, não creio que por estar sobrecarregado, mas fazia-o voluntariamente. De fato, trabalho não faltava, como se a vizinhança houvesse passado a fazer-lhe mais encomendas como um segundo voto de pêsames, mas seu esforço parecia consciente. Com mais tempo de trabalho, era de se esperar que a cada dia ele fizesse seus móveis um pouco melhor. Ele não saía de casa a não ser quando era necessário, e quando o fazia se dizia que parecia bem, sem as dores que uma morte traz no olhar. Ao mesmo tempo, a filha não mais aparecia na cidade, nem durante os feriados longos, nem durante as férias de inverno.

Não fosse a janela do meu quarto e o barulho de serra no estúdio, eu poderia facilmente me esquecer da sua existência, como acredito que muitos, por um tempo, fizeram-no. Mas vozes nunca ficam muito tempo em silêncio, elas possuem sempre a necessidade de falar e possuem-na em dobro quando se trata de conspirar. O distanciamento que se deu entre pai e filha fez o marceneiro voltar a aparecer nas rodas de conversa. Alguns atribuíam-no a uma distância que já era antiga, outros a uma briga que talvez acontecera. Não muito depois, essa foi a versão tomada como correta.

Seu empenho no trabalho também gerou alguns boatos: agora sua habilidade aumentara consideravelmente, e não passava despercebido da vizinhança que o marceneiro não fazia nada além de trabalhar, como se algo o estivesse impedindo anteriormente. A ligação disso com a morte da mulher foi natural, como seria de se esperar. Outros pedaços de conversa eu tive acesso por conta de meus pais, que ouvi discutindo sobre a vida de nosso vizinho algumas vezes. O pensamento comum era de que o casal não se amava realmente, por isso a falta de sentimentos do marido no velório e enterro da mulher. O distanciamento entre pai e filha voltaram a circular, dessa vez com um elemento novo: uma possível traição da esposa, o que acabou por fazer com que o casamento acabasse, mas sem um divórcio, o que não é incomum de se ver; e o nascimento da filha foi outro golpe, pois a frieza dele no seu tratamento demonstrava a desconfiança de que ela não era de fato sua.

Sem gastar seu dinheiro com nada além de despesas básicas, ele começou a acumular uma boa quantia através do seu sucesso, com pessoas pedindo-lhe encomendas apenas para poder conhecer o misterioso viúvo e outras sendo atraídas pela qualidade da sua mão de obra. Foi por volta de novembro que os boatos realmente pesados começaram a circular. Não deve ter sido difícil para os vizinhos juntar dois com dois e perceber ao que todos os indícios apontavam: ele matara a esposa e a filha sabia ou desconfiava. As discussões sobre isso nunca entravam em detalhes, sempre flutuando sobre uma nuvem de generalidade. Nunca foi discutido como ele poderia ter causado um ataque cardíaco nela, se disso ela morrera de fato.

Eu duvido que ele soubesse sobre o que era comentado na cidade. Um olhar amedrontado de uma caixa no supermercado, um sussurro entre duas comadres que caminham juntas enquanto ele volta do dito supermercado, esses seriam os maiores sinais que ele poderia observar da sua vida de ermita. Creio que, se algo, apenas a visita da polícia poderia fazê-lo pensar que algo estava errado. As autoridades apareceram na sua porta por razões que eu nunca saberia explicar, especialmente por não ser velho o suficiente para estar nas conversas dos adultos e idosos, mas diria que elas foram levadas pelos rumores que corriam pelas estradas da vizinhança. Não diria que fizeram por mal. O trabalho da polícia é esse, e muitas verdades são ditas nas ruas; tivessem ouvido-as antes, Roberto Garcia Gomes teria sido preso antes de cometer o assalto que o sentenciou a uma vida de prisioneiro.

Da minha janela, pude acompanhar o que acontecia. As autoridades pediram licença para entrar na casa e o marceneiro lhes concedeu. A partir daí, tudo o que sei é em decorrência de outras conversas, talvez informações privilegiadas que um policial disse à esposa e ela às amigas, talvez invenções da comunidade. Pensa-se que as figuras perguntaram sobre como aconteceu a morte da esposa, se ele estava junto dela, se a encontrou apenas depois, o que fez em seguida, se ligou para o hospital ou se tentou verificar o que acontecera com ela, se estava morta, desmaiada, o que aconteceu depois de tudo, perguntaram sobre a filha, a relação com a esposa, a razão para a filha sair da cidade, para não voltar mais. Perguntas não faltavam quando se discutia o caso, mas pouco se sabia sobre as respostas. Talvez a vizinhança não as quisesse, pois assim acabaria o mistério. Enquanto a ambiguidade permanece no ar, as coisas são mais interessantes.

Após a visita, não aconteceu mais nada por algum tempo, o que não significa que os boatos cessaram. Eles circulavam mais rápidos do que nunca, afinal, estavam agora de certo modo confirmados. A polícia não aparece na porta de qualquer um. Com razão, isso é algo sobre o que se falar, especular, discutir.

Com essa ação premeditada desde o início ou tendo suas desconfianças renovadas pelo reforço dos boatos, a polícia solicitou a exumação do corpo, para que uma autópsia pudesse ser feita. O marceneiro era oficialmente considerado um suspeito, e assim permanecia sob vigilância. O revólver que ele possuía registrado foi prontamente confiscado, sua residência revistada em busca de outras armas e uma viatura ficava plantada sem folga em frente a sua casa.

Não muito tempo depois, um juiz permitiu a exumação da esposa. Foi um evento. Talvez a expressão não seja familiar a uma parte dos leitores, então explico-me melhor: no dia do desenterro, um aglomerado de pessoas apareceu no cemitério, todas com a expectativa de ver a investigação acontecer diante dos seus próprios olhos. Eu não fui. Minha família não foi, embora talvez meu pai quisesse ir. Sei o que sei porque vi as fotos e ouvi as conversas. Nas imagens, as pessoas pareciam estar em alguma apresentação artística, um evento cultural onde vamos para conversar, ver as atrações e comer, pois comida de fato havia. Chimarrão para alguns, cerveja para outros, lanches para matar a fome. É chocante quando visto através de fotos ou ouvindo os relatos, mas na realidade nada parece mais normal, do mesmo modo que pessoas conversavam durante o velório da exumada. Não é uma vontade de desrespeitar, mas algo que acontece naturalmente, embora uma exumação fosse muito mais fílmico ou teatral do que um velório. Não me espantaria que as pessoas naquele lugar se sentissem como dentro de um romance policial, e não as culparia, eu sentiria o mesmo se estivesse junto delas.

Enquanto algum especialista tratava do corpo, o marceneiro foi levado para a delegacia, onde presumo foi questionado pela segunda vez após o arquivamento desse episódio da sua vida. Acompanhei-o pela janela, sendo escoltado pelo policial que o vigiava, sendo posto na viatura e então o carro indo embora. O procedimento foi rápido, eu diria, pois no final do dia já estava o automóvel de volta em frente a casa dele. Dessa vez não sei o que perguntaram, tampouco o que ele respondeu. Ou os agentes responsáveis foram mais discretos, ou a vizinhança estava com a respiração parada, todos silenciosos querendo ouvir o que seria dito sobre o assunto.

Sei que fizeram a autópsia da mulher duas vezes, para ter certeza, e isso só chegou aos ouvidos do povo porque alguém abriu a boca quando estavam botando o corpo de volta na cova. Não havia ninguém à volta, quem comentou foi um trabalhador do cemitério, talvez. Imagino que deva ter interessado algumas pessoas, mas para falar a verdade o caso já estava morrendo, como geralmente acontece, dado tempo o suficiente. Se na época eu perguntasse a algum adulto sobre os irmãos, levaria um tempo até lembrar-se, tão insignificante se tornara o episódio. Sempre haverá algo maior que obscurecerá o que havia antes, e assim continuará. O resultado da autópsia foi de que a mulher morreu naturalmente, de um ataque cardíaco. Devolveram ao marceneiro seus pertences e a viatura deixou de fazer parte do nosso bairro após tornar-se parte da paisagem.

Eu me pergunto se os outros também perceberam a ausência do barulho da serra e de outros equipamentos cujos nomes não saberia dizer. Por alguns dias o vizinho parou de trabalhar. Eu, com minha mente de dezenove anos e em alguns dias vinte, imaginei que era uma boa ideia ele tirar umas férias. Perguntei-me se ele sairia da cidade, não o culparia se o fizesse, pois ficar lá seria se lembrar todos os dias de tudo o que aconteceu, de todos os golpes que a vida lhe deu, se é que podemos culpar a vida e não algo muito mais concreto.

Não muitos dias antes do meu aniversário, aproximei-me da janela para verificar o que acontecia na casa vizinha, como fazia costumeiramente, embora sempre em vão. Em um dia específico, não foi. Olhei para o estúdio e lá estava ele, debaixo do teto envidraçado, permitindo-me vê-lo, quer consciente ou inconscientemente. Não sei se preferiria que fosse diferente. Seria realmente tão melhor encontrá-lo apenas dias depois, quando os vizinhos começassem a reclamar de um cheiro, ou então muito mais depois, quando agentes da companhia elétrica fossem desligar sua luz?

Chamei meu pai, disse-lhe o que havia visto e ele desceu para ir até a casa do vizinho, o telefone sem fio na mão para chamar… alguém. Talvez fosse a polícia, ou então o hospital. Eu fui junto dele, entrei em segundo na casa assim que meu pai arrombou a porta. Eu sabia onde ficava o estúdio, então liderei-o. Aproximei-me antes dele do corpo, então posso relatar tudo de primeira mão.

O marceneiro havia cometido suicídio com o revólver que a polícia lhe devolvera. Havia um pouco de sangue nas roupas e no chão, mas não muito, como estamos acostumados a ver na televisão ou no cinema. A arma estava em uma mão, a outra segurava um retrato da família. Sobre o peito, mais algumas fotos, da filha, da mulher. Quando outras pessoas chegaram, eu saí e voltei para casa. Passei a acompanhar tudo do meu quarto, como preferia. Eu não possuía intimidade com aquele homem, não o conhecia além de saber ser um bom marceneiro de estantes e outros móveis com os quais não me importava. Eu não sabia nem mesmo o seu nome.

Não sei se poderia dizer que sua morte foi também um evento. Não havia comida ou conversas paralelas, mas algumas fotos do corpo circularam dias depois. As pessoas estavam choque, como é claro que deveriam estar.

A polícia chegou não muito depois, expulsando todo mundo da casa e plantando um policial na porta para evitar curiosos. A população, por sua vez, esperou por algum tempo na calçada, ávidos por alguma novidade, mas depois, um por um, ela se dispersou. Cada um voltando para sua própria casa, quem sabe todos repensando suas vidas, o efeito comum de um acontecimento do tipo. Eu me pergunto, ainda hoje, se por acaso os primeiros impulsionadores das fofocas experienciaram um sentimento de culpa, algum gosto amargo na boca quando descobriram o que aconteceu ou enquanto caminhavam de volta para suas casas após desistirem de esperar por uma notícia sobre o caso.

A casa e o estúdio, apesar de muito bem conservados e do bom preço, ficaram vagos por muito tempo. A filha imediatamente pôs a casa à venda, comentou que após o ocorrido, era certo que não voltaria ali. Ouvi dizer que lamentava não ter sido mais próxima do pai. Ficou hospedada na casa de uma amiga durante o velório e o enterro.

Ela permaneceu alguns dias a mais. Vi-a, da minha janela, entrar junto de um grupo de amigas na casa de infância em busca de alguns itens que trouxe depois em caixas de papelão. Imagino que fosse o absoluto essencial, aquilo que queria conservar. Semanas depois, um caminhão de mudanças apareceu e esvaziou a propriedade. Não havia ninguém com eles, os trabalhadores mesmos tinham as chaves. Chamaram dois rapazes que moravam na vizinhança para ajudar a carregar tudo para o veículo. Depois pagaram vinte para cada, pois era um trabalho mais pesado.

Quando me mudei para a capital aos 25, a casa ainda estava à venda. Imagino que não tenha demorado muito mais para ser comprada, pois com o tempo uma habitação perde sua aura de “é o lugar onde alguém se suicidou” e vira apenas uma casa barata que poderá comprar para alugar.

Não tive mais notícias sobre a filha. Poderia ter perguntado para alguém à volta que fez parte da história, mas creio que eles não saberiam do que eu estava falando quando perguntasse sobre a filha de um marceneiro. Se algo, teriam muita dificuldade em se lembrar.

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