O Memorial do Desterro, de Mauro Maciel

O Memorial do Desterro é um livro que ficou guardado na minha estante do Kindle durante um bom tempo. Tempo o suficiente para que eu não me lembre quando o comprei ou mesmo qual a razão para tê-lo feito. Tenho quase certeza de que o fiz porque gostaria de saber como era um livro ganhador do Prêmio Kindle de Literatura, cujo troféu da segunda edição Mauro Maciel levou para casa. Assim, a edição permaneceu no meu e-reader durante um bom tempo, até que eu resolvi que já era hora de começar essa obra.

Informações

Título: O Memorial do Desterro

Autor: Mauro Maciel

Editora: Amazon / 2017

Páginas: 186

Sinopse: Nessa narrativa, um renomado escritor – que há 20 anos não escrevia e que residia em uma vila de pescadores do nordeste brasileiro – vê-se impelido a voltar para a cidade que abandonou para providenciar o sepultamento de seu inquilino, o qual fora encontrado morto ao lado de um barco à vela, às margens de um rio, na fictícia cidade de Santa Maria do Mar Revolto, no sul do Brasil. […]

O romance, com toda certeza, me surpreendeu. É um dos melhores livros que já li, sua trama é interessante e a escrita é excelente. Fez-me pensar, em certo ponto da narrativa, em um livro característico de Rubem Fonseca – com menos palavrões e erotismo, quem sabe, mas havia ali algum toque de romance policial. São narrativas do estilo de Maciel que, acredito, estarão nos currículos escolares, no cânone literário do Brasil do futuro.

A narrativa me lembra, além de uma aventura policial, uma ficção literária que muito me fez pensar no estilo de Brás Cubas, de Machado de Assis, assim como outros dos nossos escritores canônicos. É bastante possível que Mauro Maciel acabe, se não fazendo parte desse cânone futuro, pelo menos sendo um escritor ainda lembrado e editado, aos moldes de alguns outros autores que são ignorados pela crítica e pela elite literária, mas cujas histórias nunca deixaram de fazer parte do mundo. Seu livro A Travessia do Rio Japeju está agora na minha lista de próximas leituras, basta apenas decidir se prefiro-o em formato físico ou digital.

Como todo bom escritor sabe, crítica boa é a água que com a qual nos banhamos, mas infelizmente nossa toalha é feita das que apontam problemas. Assim, daqui para baixo discorro apenas sobre os problemas que encontrei na narrativa – ou nos paratextos -, mas não as deixe te impedir de ler esse romance.

Como não reli a sinopse completa antes de começar o livro, fiquei surpreso quando voltei a procurar pelo título na Amazon. Certamente ele apresenta informações demais sobre a trama, todas elas pontos que me surpreenderam consideravelmente quando comecei a ler, o que dubitavelmente teria acontecido não fosse esse o caso. O seu primeiro parágrafo, que foi o que escolhi para destacar, julgo como sendo o mais importante – embora algumas outras breves informações poderiam deixá-lo melhor a ponto de remover o restante. Sendo assim, aconselho a não lê-lo por completo, para evitar esses conhecimentos prévios sobre a narrativa.

Apesar do bom estilo de escrita, nenhum livro é sem problemas. Nesse, há alguns detalhes que incomodaram e me tiraram da história.

No início, a incessante repetição do nome da cidade de “Santa Maria do Mar Revolto” quando a probabilidade de as pessoas se referirem a ela pelo seu “nome completo” é nula. Ao menos quando ela já foi estabelecida, um simples “Santa Maria” funcionaria como referencial, assim como “São Miguel” para a outra. Se o problema era a já existência dessas duas cidades, uma no próprio Rio Grande do Sul, onde a história se passa, então uma mudança seria apropriada.

O autor possui dois “tiques” que muito me incomodaram, o primeiro sendo a insistência em dizer em vez de falar, muitas vezes aparecendo entre duas falas de outros personagens, por exemplo:

— Olá — ele disse.

Eu disse olá.

— Como você está?

Eu disse que estava bem.

— Que bom.

Procurei encontrar uma explicação, seja dentro da narrativa, pensando na personagem, tanto exterior, pensando na técnica de escrita. O fato é que muitas vezes essas falas ocupam mais palavras do que ocuparia a própria resposta. Ao meu ver, é claro, a única razão para se escrever desse modo seria para evitar longas informações desnecessárias ou reescrever algo que o leitor já sabe. Ligado a esse problema está o da repetição em fala do que já foi dito. Fui feliz em encontrar um exemplo que não possui spoilers:

[Ele], então, pediu para que eu voltasse a escrever.

— Volte a escrever. Cuido da navegação — ele disse.

Capítulo 22

Agora, um problema menos relevante, mas algo que tive em mente por estar lendo uma obra ganhadora de um prêmio: as vírgulas. Não é algo que permeia toda a obra – quando estava no final, ou não vi nenhum, ou não os estava mais notando -, mas certamente mostra que ela precisa de alguma revisão antes da publicação física. E, quem sabe, nessa edição o autor resolva retirar o artigo do título; acredito que ficaria muito melhor sem ele.

Fora isso, há pouco que se possa falar sobre o romance sem despejar spoilers, sendo assim, o restante das minhas críticas acabam por revelar partes da trama. São questões que eu gostaria muito de discutir com outro leitor, porém, sabendo que não encontrarei nenhum por perto, deixo-as nesse blog, para que quem sabe algum dia outro acabe por achá-las.

O restante das minhas impressões

Na incansável busca sobre a vida do senhor Caird, o autor e Mário Monte vão enfim parar no barco outrora pertencente ao inquilino. Lá, o escritor tem uma revelação ao notar que o nome do barco é “Senhor Caird”, pois ele é também uma réplica do bote “James Caird”, comandado por Shackleton. O narrador percebe, então, que as autoridades erroneamente deram ao inquilino o nome do barco.

O primeiro problema que possuo com essa parte tem a ver com a descoberta do autor. Em nenhum momento antes ele deu a entender que compreendia bastante de navegação e história da navegação. Ele disse, sim, que gostaria de usar o bote para navegar na sua cidade, mas isso é até então apenas um sonho, e sonhos não são necessariamente coisas que temos a possibilidade de fazer. Mais adiante, na narrativa, descobrimos que ele navegava junto de pescadores em São Miguel, mas a explicação vem tarde demais.

O grande problema, na minha opinião, é que, desde o início da narrativa, o nome “senhor Caird” vem junto de aspas, o que inevitavelmente acaba por retirar a surpresa dessa revelação. Não é algo que nos remove da narrativa, considerando que a obra é um memorial, sendo assim, tudo já aconteceu e o autor sabia desde o início que esse era o caso, mas é algo que poderia ter sido melhor pensado, afinal, esse narrador não fala logo no início “o inquilino era ‘senhor Caird’, mas esse na verdade não era o nome dele”. Nesse mesmo tópico, no final do livro o escritor considera intitular o memorial como “O Desterro do Indecifrável Senhor Caird”, mas desiste da ideia pois não tem certeza se esse era o nome real do falecido. Ora, acredito que ele tem certeza de que esse não é seu nome. Até então, ele não havia demonstrado dúvidas quanto a esse quesito, a descoberta do barco parecia ter posto um fim nessa questão.

Há alguns problemas quanto à procura de informações sobre o inquilino: o autor revira o apartamento no qual o primeiro morava, mas apenas vai ao barco quando o policial sugere, o que parece improvável considerando sua ânsia por ter o barco em mãos. O mesmo se dá quanto à procura do nome do falecido nos registros da companhia elétrica: em primeiro, possivelmente o autor já teria pensado nisso, em segundo, o próprio agente o teria feito, visto que possui um amigo que trabalha na companhia e que frequentemente o auxilia nas investigações.

Quando estão em alto-mar, o escritor diz que havia comida para apenas dez dias, porém essa era a contagem de quando ele partiria sozinho, agora, junto de Monte, a quantia deveria ser  metade. Ainda, após apenas dois dias o escritor gesticula e faz e fala sozinho, “como se fosse um louco”, o que me parece cedo demais para uma loucura, mesmo que sutil. Quanto ao policial, suas atitudes ao embarcar são bastantes fora de personagem; mesmo uma transformação por estar em alto-mar não seria grande a ponto de tirar dele toda sua razão e dureza profissional, especialmente considerando o breve tempo em que ficaram navegando. A exemplo disso: “Ele ainda estava magoado comigo por tê-lo chamado de imbecil”. Minha anotação no Kindle foi “fala sério”, afinal, um policial possivelmente foi chamado de coisas muito piores na sua vida. Embora seja verossímil a excitação inicial do agente ao comandar o bote, é inverossímil perder a razão ao ponto de não querer dormir por 30 horas seguidas.

Por fim, apenas acredito que o livro poderia ter acabado um capítulo mais cedo, mas isso é apenas opinião pessoal.

Como disse, a obra terá uma versão física, e espero que um profissional trabalhando para a Nova Fronteira se atente a quaisquer outros erros que, sem sombra de dúvidas, não devem fazer parte de um romance tão bom. Enquanto adicionava o livro ao Skoob, debati se deveria dar-lhe três ou quatro estrelas. Optei pelo primeiro apenas por conta dos problemas já citados, além de alguns breves outros.

Apesar de tudo, os outros títulos sob o nome de Mauro Maciel já fazem parte da minha lista de compras. Como de costume, não faço resenhas sobre qualquer livro: esse é um autor sobre o qual manterei o olho.

Ver o livro no Skoob

Comprar na Amazon

Se tiver interesse em outro tipo de escrita, recomendo alguns contos bastante curtos:

A chegada do circo pela manhã

Na jaula

Ou mais longos:

Dois gritos vindos do sótão

Olhos de esclera dourada

Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.