Olhe as flores do inverno

Fiquei sabendo do que aconteceu, posso imaginar como se sente. Pensei em escrever algo que, com sorte, poderá lhe ajudar. Como agora sabe, não só de trépidas manhãs é feito o mundo. Entenderei se me disser que os finais de dia já não têm a bela aparência de antes, que as estrelas, quando chega a noite, parecem particularmente mais longe desde a última vez que as viu.

Já estive, mais de uma vez, na mesma situação assombrosa pela qual passa. Como a idade nos traz experiência, junto a ela está a dor que insistimos em não ver. Assim, quando lhe dizem para respeitar os mais velhos, não se deixe enganar pensando se tratar apenas de uma tradição antiquada relacionada à idade do próximo. É mais que isso, o que descobri apenas com o tempo. Por trás de cada ruga há um sofrimento impossível de pôr em palavras, dores que seu portador leva perto de si, no coração, na mente. São dores sempre presentes, com as quais eles fazem suas atividades diárias: são filhos que nos olham invisíveis do outro lado da mesa da cozinha, é o amado que dorme sem peso ao seu lado à noite, é até mesmo a mobilidade que falta para um bom banho.

E porém, como no dia anterior, com horário marcado no relógio, a luz chega no dia seguinte, invadindo o quarto sem considerar sua vontade ou desvontade de acordar. Seria o sol alguém que não se importa com suas dores ou alguém que o ama ao ponto de nunca, nem um dia sequer, esquecer que você existe? Ainda não tenho a resposta, mas lhe direi quando puder.

Não digo com isso que seus sentimentos são inválidos, que a tristeza é algo que sobrevoa todos e que você deve se manter firme. Pelo contrário: chore se precisar; grite o mais alto que conseguir, até que se sinta leve e não consiga ficar em pé. Deite na cama, procure uma cadeira, grite mais um pouco, até que tudo esteja fora. Mas lembre-se que o dia se levanta novamente amanhã, e não apenas pelo sol você deve se levantar também, mas pela pessoa pela qual ele retorna, em horário marcado, todo dia pela manhã.

Espero que me permita, apenas por um momento, falar de flores. Apenas uma. Hoje, quando saí do meu quarto e liguei o rádio na cozinha, ouvi a temperatura para a manhã invernal. Uma fina crosta branca, o mais perto que chegamos de uma neve brasileira, sobrepunha o campo além da janela. Enquanto ouvia o som da água fervente no fogão a lenha, enquanto possuía um grosso casaco junto de mim, peguei-me pensando que seria melhor não sair. Não estou mais na idade de regar flores durante o inverno, afinal. Entretanto, quão solitárias ficariam as flores das quais sempre tomei conta e para as quais eu era um segundo sol! Sem querer decepcioná-las, peguei o regador e fui ao jardim.

Foi a melhor decisão que jamais tomei. O frio estava agressivo, como havia antecipado, e porém os amores-perfeitos do jardim nunca haviam estado mais belos, nunca suas cores foram mais vivas e harmoniosas quando brotavam numa pétala coberta de outra. É uma flor propícia ao frio, mas não falo disso. Quando outras haviam se retraído à espera da primavera, elas se mantinham fortes, resistentes como um jovem apaixonado.

Sempre que se sentir como eu sei que se sente nesse momento, olhe as flores do inverno. Contemple-as bem. É nelas que deve se inspirar. Como para elas, o frio não deve ser para você um momento de escuridão. Pois a escuridão completa não existe, se quando todas as luzes se apagam, mesmo a mínima faísca cega-nos com seu brilho. Pegue-a e dela faça uma fogueira. Como eu já o fiz, sei tem a mesma mágica e necessária habilidade. Assim, quando tiver minha idade, talvez também para você suas rugas serão não uma lembrança daquilo que sofreu, mas de tudo o que sobreviveu.

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