Quando garotas

A terça-feira não era um bom dia para ir à sorveteria em frente à escola. Na maior parte das vezes, o gerente deixava tudo nas mãos de uma mulher baixinha e bem nutrida chamada Marta. Às terças apenas, por alguma razão, ele aparecia para coletar o dinheiro do caixa e fazer pedidos do que faltava. O grosso do trabalho continuava nas mãos da mulher, mas isso ele fazia, talvez pelo gosto da hierarquia. Geralmente usava óculos de sol mesmo dentro da sorveteria, o que lhe dava um aspecto estranho, de algo que não está certo. Nas raras vezes em que não o usava, compreendíamos seu motivo: ele fitava as garotas da escola secundarista que iam ali quando fazia calor. Fazia bastante calor naquela terça-feira. No intervalo das aulas, parecia que todo o colégio havia tido a mesma ideia. Há coisas que combinam bem com o verão: areia, férias, bronzeado, parque aquático, aquele milho verde que sempre vendem na praia, e, sobretudo, sorvete.

Éramos as últimas na loja, nosso intervalo nos seus momentos finais. O conceito de self-service ainda não havia chegado na região, então fazíamos o pedido para Marta, que surpreendentemente se movia como uma ginasta para pegar todos os sabores. Enquanto Mônica estava numa de suas indecisões entre o chocolate e o pistache, Carla fazia seu pedido com uma gentileza inencontrável no restante do planeta.

“Poderia pegar uma bola de menta, por favor? Com chocolate… Ah, acho que vou querer uma de abacaxi também. Será que misturar os dois fica bom?” sorriu num tom de branco que eu não acreditava existir. Um líquido de baunilha começava a escorrer pela minha mão. Mônica disse que enfim havia decidido pegar o de abacate e esperava Carla fazer o pagamento.

O gerente estava no fundo da loja, escorado na parede. Não usava seu óculos de sol, de modo que conseguíamos saber para onde estava olhando. Carla era a mais bonita do nosso grupo, mas, ao mesmo tempo, todas éramos. Dizer isso não é vangloriamento. Uma virou modelo, outra atriz e, outra ainda, professora de física e pesquisadora-barra-cientista, embora talvez não seja a profissão esperada de garotas bonitas. A maioria de nós tinha corpos normais, ou aquele associado a modelos, como era o caso da que seguiu essa carreira, mas Carla era um pouco mais desenvolvida. O gerente olhava para o volume no seu peito enquanto a atendente fazia o cálculo.

“Sete reais e vinte e três centavos,” ela anunciou numa voz tranquilizadora, doce, digna de alguém que trabalha com aquilo que há de melhor no mundo. Carla apalpou os bolsos da frente, então os de trás.

“Acho que esqueci de pegar o dinheiro,” ela se desculpou genuinamente. Eu não era má amiga, já estava puxando minha carteira da bolsa, percebendo que a baunilha agora tinha metade do seu tamanho e formava uma pequena poça doce no chão. Então uma voz amarga de fumante veio dos fundos.

“É por conta da casa. Uma garota bonita assim não precisa pagar.”

Minha reação natural foi revirar os olhos. Carla levou alguns segundos para entender o que estava acontecendo, pois não era a reação que esperava. Já estava a meio caminho de entregar o sorvete para a atendente quando puxou a mão de volta.

“Ah, muito obrigada,” ela ficou sem graça, mais vermelha que o sorvete de morango, embora esse fosse apenas um rosa-claro decepcionante. Fez o seu melhor para sorrir para o gerente, que lhe sorriu de volta.

Logo atrás, Mônica pedia três bolas de menta com hortelã para a atendente. Carla estava ao meu lado, a cabeça um pouco abaixada, dando a entender que queria sair dali o mais rápido possível. Mônica não percebeu e demorou longas horas contando suas moedas para dar o valor exato. Números são importantes, afinal de contas; 46 não quer dizer 50, mas 46.

Paola nos aguardava no grande pátio do colégio, sentada na sombra de uma árvore. A brisa fresca ajudou no sabor do sorvete. Paola pediu um pedaço do de Carla, já que ela nem mesmo havia pago por ele.

“Porém é algo interessante,” disse após lamber os lábios. Ela havia perguntando o porquê da nossa demora e nós contamos o conto.

“O que é?” Carla perguntou.

“Você não precisou pagar pelo sorvete apenas porque é bonita.”

“Ele iria para o lixo de qualquer modo,” Carla encolheu os ombros. “Seria prejuízo para a sorveteria,” parecia se desculpar.

“Carla, eu não estou julgando, muito pelo contrário.”

“Acha bom conseguir algo apenas pela sua aparência?” perguntou a mulher que anos depois teve seu primeiro papel atuando ao lado de um galã na novela das nove. A atuação foi boa, o roteiro, péssimo.

“Bem… Talvez não quando é algo que acontece de repente, deixando você sem reação, ou quando estamos falando de um cara como aquele, mas é um poder e tanto.” Disse e pareceu ponderar sobre o assunto.

“Talvez seja um poder inútil,” comentei. Após sair da sua reflexão, os olhos de Paola se iluminaram como se fosse Cabral enfim avistando terra ao longe.

“Não, não é inútil. É incrível. Imaginem o que poderíamos fazer com isso. Eventos como o de hoje acontecem ao acaso, uma vez na vida, uma vez ao ano, algo assim, mas como seria nossa vida se pudéssemos controlar quando eles acontecem?”

“Admito, não é um poder inútil, apenas impossível.”

“Você é bonita, todas nós somos, isso é algo que conseguimos controlar justamente por isso.” Meu rosto devia denunciar alguma coisa, pois Paola percebia que seu sermão não me convencia. “Você acha que ele faria o mesmo se fosse a Laura?” ela jogou sujo.

“Bom… Não sei…”

“Você mesma comentou sobre o modo como ele estava olhando para Carla. Em outra situação, o sorvete iria para o lixo, pode acreditar,” ela pôs um ponto final. Revirei os olhos, mas não podia discordar, considerando o homem sobre quem falávamos. “Não estou dizendo que devemos ficar feliz por isso, estou dizendo que podemos nos aproveitar disso. Fazer com que aconteça sempre.”

“De que modo?” Carla perguntou. Paola se levantou e ficou de frente para todas nós, parecia um político tentando convencer o eleitorado de que dessa vez, sim, solucionaria o problema do esgoto a céu aberto.

“Jogando charme, flertando. Não precisa ser algo sério, apenas… um jogo. Meus irmãos vivem desafiando um ao outro, por que nós não podemos fazer o mesmo?”

“Desafiar uma à outra a…?” Carla terminava seu sorvete.

“A conseguir o que quer. A usar o fato de sermos bonitas para fazermos os caras comerem nas palmas das nossas mãos. Se vocês estão fora, tudo bem, vou sozinha, mas tudo fica melhor quando feito em grupo,” disse a modelo cuja participação numa orgia foi manchete de revista cinco anos depois. Dizem que dá para ver traços de psicopatia em assassinos em série até mesmo na sua infância; todos já possuem dentro deles o que serão no futuro.

“Aproveitar que somos bonitas para conseguir coisas?” eu disse. “Esse é um conceito milenar, você não está inventando a roda, se é o que está pensando.”

“Não estou falando de nos casarmos com um velho rico, mas de coisas simples, que talvez nem mesmo nos beneficiariam. É apenas… um modo de saber que ainda somos bonitas. De confirmar nossa beleza. O que vocês acham, estão dentro?” Paola perguntou.

“Dentro,” Carla parecia curiosa.

“Dentro,” Mônica era facilmente influenciada.

“Dentro,” eu disse. Elas eram minhas únicas amigas.


Paola rapidamente se mostrou como líder, o que era de se esperar. Dentre todas nós, ela tinha mais propensão, ou aura, além de ser a mais animada. No dia seguinte, mostrou que havia pensado sobre o assunto e estipulou algumas regras básicas.

A primeira: não devíamos fazer algo com a mesma pessoa mais de uma vez. Funcionou uma vez, ótimo, agora ache outro. Desse modo, ninguém vai desconfiar de nada. Mesmo os homens mais burros percebem um padrão se ele se repetir vezes o suficiente.

A segunda: apenas coisas pequenas. Em se tratando de dinheiro, por exemplo. Nenhum desafio deveria ser “conseguir dez mil reais daquele cara ali na esquina”. Embora a relação com o dinheiro tenha sido respeitada, na medida em que o tempo passava, as metas ficavam mais complexas.

A terceira e última, incluída por insistência minha: é um jogo, ninguém precisa fazer algo que não quer. Os “desafios” não seriam realmente desafios, mas propostas de objetivos que poderiam ou não ser aceitas. Se você retirasse o livre arbítrio, o jogo estaria fadado a violar a segunda regra em algum momento, pois humanos são animais: uma vez percebido que a outra pessoa teria de fazer tudo o que fosse pedido, alguém tiraria vantagem disso.

“Os humanos,” eu disse para Paola. “Não apenas os homens sabem ser cruéis.”

“Concordamos em discordar, então,” ela riu para encerrar o assunto. Soltando um suspiro, guardei meus cadernos na pasta, onde descobri o exemplar esquecido de um romance da biblioteca.

“Droga, esqueci de devolver o livro que você me indicou. Eu tinha ele ontem, mas toda essa história me distraiu.”

“Ripley?” Paola perguntou. Pegou a edição da escola das minhas mãos, como se para ver se reconhecia o tradutor, se a sinopse ficara boa, como se conhecesse profundamente a literatura além de Maquiavel e alguns romances avulsos.

“O próprio.”

“Você não vai ter que pagar multa?” ela perguntou, estava sentada sobre o encosto da cadeira, com os pés no assento. “É isso, você vai entregar ele com atraso.”

“Eu já sei disso, pois não consigo voltar no tempo. Você dormiu o suficiente?”

“Quero dizer que você não pode pagar a multa. Quem está cuidando da biblioteca hoje?”

“É um garoto da outra turma. Acho que ele gosta de você, aliás,” Mônica se juntou à conversa.

“Perfeito. Esse é o seu desafio, então.” Ela bateu com o livro no meu peito. Agarrei-o antes que caísse no chão.

“Não quero usar isso para tirar vantagem dele. É apenas um real.”

“Se fosse um valor muito grande, eu não poderia pedir. Justamente porque é baixo que é um desafio aceitável. Certeza de que não consegue?” Paola perguntou.

Foi nesse momento que eu percebi que a terceira regra não significava muita coisa. Você podia não aceitar coisas absurdas, é claro, mas isso não significava que podia não aceitar coisas simples, especialmente quando estava argumentando contra Paola. Ela era boa com as palavras, capaz de tornar qualquer situação a seu favor. O clichê diz que a mulher bonita foi esculpida por Deus. Quem deu beleza a Paola foi o Diabo, pois sabia que, com isso, ela seria invencível. Assim como há homens que nunca deveriam ter poder em suas mãos, há mulheres, e essa era capaz de tudo, até de fazer a cabeça desses homens.

“Vocês vêm comigo?” perguntei. Paola saltou da cadeira e deu alguns pulos de felicidade, dando tapinhas nas minhas costas como se eu tivesse feito algo incrível.

A biblioteca estava vazia. Elas entraram primeiro e sentaram-se numa mesa, para não levantar suspeitas. Depois de alguns minutos, entrei com o livro na mão. Elas deviam esperar que eu falasse direto com o atendente, pois me fizeram uma cara de interrogação quando segui reto para as prateleiras do fundo. Paola parecia pensar que eu havia desistido, mas ela tinha os métodos dela e eu, os meus.

Dos fundos, olhei para o bibliotecário. Alguns estudantes eram voluntários para cuidar da biblioteca e seguiam uma rotina. Na quarta-feira, era a vez de um garoto de outra turma com quem nunca tive muita interação, mas que sempre ficava estranho perto de mim, não conseguia falar direito.

Eu não era idiota, sabia que ele gostava de mim. Nunca pensei muito sobre isso. Talvez ignoraria o fato até que algum dia ele conseguisse conversar normalmente, mas essa opção havia sido tirada de mim. Eu teria de falar com ele naquele momento. Depois, nunca mais; pois mesmo se na semana seguinte ele vencesse sua timidez, eu nunca conseguiria olhar nos seus olhos sem me sentir culpada. O que eu estava fazendo também era uma atuação. Não tão boa quanto as de Carla, talvez, mas o suficiente para enganar um adolescente platonicamente apaixonado.

Do fundo da biblioteca, observava-o por entre as prateleiras. Quando ele me percebeu, escondi-me por um segundo e fingi tomar coragem. Apertando o livro contra o peito, desfilei até o balcão.

“Oi,” escondi um pouco o rosto, coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha. “Imagino que você saiba por que estou aqui, né?” mostrei o livro.

“Oi! Sim, claro!” seu rosto começou a ficar vermelho. Aproximei-me um pouco, quase como se fosse contar um segredo.

“Juro que tinha ele na mochila ontem, mas, não sei por que, não me passou pela cabeça a ideia de vir aqui devolver ele. Acho que as provas estão me desconcentrando, sabe como é?”

“Sim,” ele riu e se ajeitou na cadeira, então decidiu que a melhor ideia era se levantar para me ver de frente, embora ainda fosse alguns centímetros mais baixo que eu.

“Bem, estou aqui agora, pronta para a punição, embora deva avisar que preciso trazer o dinheiro outra hora. Amanhã, talvez. Por acaso… você vai estar aqui amanhã também?” perguntei já sabendo a resposta.

“Ah, na verdade, não. Vai ser um colega meu.”

“Pensei que seria você… Que pena, então,” eu disse, desviando os olhos para o lado com frustração. “Aqui está ele, foi bem interessante, eu recomendo!”

“Mesmo? Então vou ler ele também!”

“Quem sabe você pode me falar o que achou dele depois. Podemos discutir a história!” sorri para ele enquanto mudava o peso de uma perna para a outra e movia um pouco o ombro para o lado. “Então… quanto eu devo?”

Ele negou com a cabeça antes de achar as palavras certas.

“Tá tudo bem. Você tava com ele ontem…”, ficou ainda mais vermelho, estava olhando para baixo enquanto pegava o livro das minhas mãos.

“Mesmo? Ah! Eu te amo! Muito obrigada!” abri meu sorriso e deixei minha voz um pouco mais aguda. Ele sorriu envergonhado, a cabeça ainda baixa, então registrou o livro como entregue. Algum sentimento de culpa ou restante de diabolismo me fez dizer, antes de sair, “Te vejo outra hora, então?”

“Claro! Obrigado!”, sua voz também estava um pouco aguda, mas não o fazia de propósito, talvez apenas nunca teria uma voz grave. Enquanto as portas se fechavam atrás de mim, ele praguejou baixinho por ter agradecido. Apenas consegui falar novamente com Paola e Mônica no final do dia.

“Para quem era tão contra, você foi bem até demais,” Paola disse.

“É verdade, eu nunca teria pensado em fazer aquilo.”

“Não digam isso,” pedi, um pouco envergonhada. Talvez elas tenham interpretado como se eu não achasse que merecesse o elogio, mas eu apenas não queria admitir para mim mesma que havia ido bem. Ser capaz de iludir os outros não deveria ser uma virtude.


O próximo “desafio” não foi nem um desafio, nem uma proposta. Paola simplesmente decidiu o que faria e nos avisou, como se houvesse completamente admitido que sua intenção não era jogar um jogo com as amigas, mas ver homens comendo na palma da sua mão. Seu objetivo era arriscado. Envolvia um professor. Ela parecia se excitar com a ideia de ver alguém em posição de poder se curvar a ela apenas porque era bonita.

“Vocês se lembram do trabalho de literatura que precisávamos ter feito?”

“Você não fez?” perguntei, não necessariamente surpresa.

“Eu me esqueci, mas também devo ter me esquecido porque não queria fazer. É longo, entediante e ninguém liga para isso. Duvido que algum dia eu vá precisar saber as características do Modernismo para alguma coisa na vida. Mas posso usar não ter feito o trabalho a meu favor.”

“De que modo?” Carla perguntou, largando a caneta que estava usando para copiar da lousa o restante da matéria. A sala de aula estava vazia, todos já haviam saído para o intervalo.

“Vou ver se consigo convencer o professor a estender meu prazo de entrega para hoje de noite ou amanhã de manhã.”

“Ele não vai fazer isso, já havia nos lembrado várias vezes antes,” eu disse.

“Talvez. Mas vou tentar mesmo assim. Essa é a ideia, não é? Fazer o impossível acontecer sempre.”

“Quer dizer que não vai apenas pedir, vai usar isso como um desafio?” Carla perguntou.

“Exatamente. Querem vir comigo?”

Carla e eu nos entreolhamos. Paola não parecia ver nisso o que quer que fosse de errado. Aceitei juntar-me a elas pelo simples fato de que não gostaria de ver nosso professor sendo demitido. Não importa se você for inocente ou culpado, se uma aluna está se jogando em cima de você e outra pessoa vir, sua carreira acaba ali mesmo.

Ele estava na sala dos professores de línguas, sozinho. Carla e eu ficamos do lado de fora, ouvindo e espiando de vez em quando. Se estivéssemos lá dentro enquanto Paola tentava fazer seu jogo, não daria certo. Ela bateu à porta e entrou, deixando-a entreaberta. Não consegui ouvir o que era dito, como quando alguém está falado do outro lado da parede e você sabe que é português, mas não identifica as palavras. Por isso, tentei observar através da fresta da porta.

O professor estava do outro lado da escrivaninha. Havia um monte de papéis à sua esquerda, certamente os trabalhos de algumas horas antes. Deve ter perguntado o que Paola queria. Num primeiro momento, ela estava em pé, apenas conversando. Pelo rosto dele, as coisas não iam bem para ela.

Ela se curvou, pôs um pé mais para trás e apoiou os braços na escrivaninha. Ela sabia, e eu também, que isso fazia com que seu decote aparecesse, mostrando seu sutiã. A calça de ginástica e o tênis que ela usava completavam um visual do qual ela estava muito contente. Ele tinha uma caneta na mão, eu conseguia ouvir os cliques que ela soltava. Consegui compreender apenas as palavras finais, ditas mais altas, e só o suficiente para carimbar de verde aquele desafio autoinfligido.

“… E por qual razão você não conseguiu completar ele antes de hoje?” o professor perguntou.

“Simplesmente porque ele é longo… É um trabalho muito duro, eu não estava nem mesmo na metade. Mas… Acho que consigo terminar até amanhã de manhã. Passo a noite toda fazendo, não vou nem dormir… O que o senhor acha?” ela perguntou. Ficou em pé novamente e lentamente prendeu o cabelo num rabo de cavalo. Sua camiseta era justa. Se botasse seus braços para cima, ela sabia que isso a levantaria e exporia não apenas sua barriga, como consegui ver pela fresta, mas também mostrava uma leve linha da calcinha preta, o suficiente para ser notada.

“Prefiro que você não passe a noite em claro, então me mande por e-mail hoje de noite. No máximo, quero ver a notificação na minha caixa de entrada quando eu acordar às seis. Entendido?”

“Perfeitamente!” ela pareceu silabar a palavra. “Muito obrigada, professor.”

Carla tocou no meu ombro para que nos afastássemos da porta. Paola saiu logo depois, um ar satisfeito estampado no rosto. As duas conversaram extensamente sobre o ocorrido, como se Paola fosse um ser místico subitamente vindo à terra. Ela havia realizado um feito incrível, afinal de contas.


Alguns dos desafios não eram realmente algo que nos beneficiaria, apenas algo que extraíamos dos garotos da escola, ou de outros homens que encontrávamos. Paola começou a fazer algumas coisas por fora, sem nem mesmo nos avisar, e depois apenas relatava tudo num grupo de mensagens que havíamos feito. Como era de se esperar, ela era a que mais nos propunha desafios.

Havia um garoto da nossa escola que ninguém compreendia. Era bonito, popular entre os meninos e as meninas, mas parecia deprimido quando alguém o via sozinho. Paola havia decidido que ele escondia algo.

“Carla,” ela chamou. “Aquele garoto é seu. Descubra o que tem de errado na vida dele. Leve quanto tempo precisar, mas consiga essa informação.”

“Você está perguntando isso apenas porque está curiosa? Pode conseguir essa informação você mesma, por que está pedindo para mim?”

“Porque é um desafio, e eu acho que vai demorar alguns dias para você conseguir. Não tenho paciência para isso.”

Carla aceitou. Não havia como recusar algo a Paola. Além disso, como eu esperava, ela já havia se esquecido da não obrigatoriedade dos desafios, assim como as outras. Se o Brasil elegesse Paola como presidente, cairia numa ditadura sem nem mesmo perceber ou se importar. Carla começou sua jogada no dia seguinte. Demorou uma semana.

Ela começou sentando-se ao lado dele, puxando um assunto qualquer enquanto nós, da escada, fora da vista deles, ouvíamos tudo. Aquilo que não ouvíamos, ela nos contava mais tarde. Acho que sei mais sobre ele do que sobre todos os namorados que já tive ou terei. Não sei se Carla fazia todas essas perguntas para satisfazer a curiosidade de Paola ou se estava de fato interessada no menino. Era um dos problemas em relação a esses desafios. Tal qual para os homens com quem conversávamos, nós mesmas por vezes não sabíamos discernir realidade de ficção. Com alguém como o gerente da sorveteria, o mais certo era imaginar que estávamos apenas nos aproveitando dele, mas em relação ao professor, ou a esse garoto que interessava a Paola, eu não saberia dizer.

Alguns anos depois, descobri que Paola tem interesse por homens mais velhos. Fizera aquelas insinuações para o professor de literatura apenas para conseguir entregar um trabalho mais tarde ou tivera vontade de se mostrar para ele? Talvez nem mesmo ela saberia responder. Mas tinha algo que eu havia descoberto naquele mesmo dia: alguns garotos da turma haviam, antes de nós, pedido para entregar o trabalho um pouco mais tarde, pois só precisavam completá-lo, e ele havia aceito, sob as mesmíssimas condições. Não falei isso para Paola. Ela não aceitaria o fato de que sua vitória não havia sido uma. Um dos garotos que havia pedido pela extensão era a vítima de Carla.

No sétimo dia, ela contou algo que nos pegou de surpresa. Eles haviam tido um encontro, conversado o dia inteiro, se divertido e se beijado. Ao final do dia, foram para a casa dele, assistiram a um filme no quarto. O filme acabou, as mãos bobas se intensificaram e eles transaram antes de Carla voltar para casa e contar tudo para nós. Até hoje não sei se ela fez isso porque havia se interessado por ele ou se queria usar aquela oportunidade para conseguir o tão aguardado segredo que ninguém sabia se existia. Afinal de contas, existia.

Era algo capaz de desestabilizar por completo a vida de uma pessoa, mas o que importava era que Paola tinha sua curiosidade sanada. Talvez Carla nunca teria descoberto, mas o fato de tirarem suas roupas um na frente do outro fez com que o problema ficasse à mostra. Algumas das partes do corpo do garoto, aquelas que ficam escondidas sobre as roupas, estavam cheias de hematomas. As costas, a barriga, um pouco das pernas. Ela não perguntou nada quando viu. Poderia ter simplesmente questionado aqueles machucados e evitado a transa, já que isso estragaria o clima sexual do encontro, mas não o fez. Então ela estava interessada, certo? Ou… apenas quis usar aquele garoto bonito para suprir o desejo carnal presente não apenas nos humanos, mas também nos adolescentes? Como eu disse, era algo confuso.

“Fiquei com medo de apertar ele com força demais,” ela disse. Deve ter sido nesse dia que Carla descobriu que a conversa após o sexo é a melhor maneira de desvendar coisas sobre seus parceiros. Paola, não duvido, já sabia. Quando tudo acabou e eles estavam deitados um ao lado do outro, ela perguntou o que aquelas feridas significavam. Houve algum tempo de silêncio, talvez ele ponderasse se devia contar sua história, mas suas defesas já estavam baixas e possivelmente era uma situação sobre a qual queria compartilhar com alguém. Não havia ninguém com quem houvesse ficado mais íntimo do que com a garota nua deitada sobre seu braço, então contou-lhe tudo.

O pai tinha problemas com a bebida, batia-lhe quase sempre. Quando um roxo desaparecia, outro surgia. Era por isso que ele, o garoto, estava procurando um emprego, para conseguir seu próprio dinheiro e sair de casa. Já havia tentado convencer a mãe a ir com ele, mas ela não queria. Ele não entendia por que ela não queria se separar dele, já havia feito de tudo, mas ela dizia que amava o pai. Eles conversaram por um bom tempo, até escurecer lá fora. Depois que toda a história havia sido revelada quase num só fôlego, ele chorou.

“Chorou na sua frente?”, foi o único comentário de Paola, que riu. Após ouvir que Carla e o garoto haviam se beijado e ido além, pensei que ela fosse esboçar alguma reação, inveja, ciúmes, qualquer coisa. Pensei que houvesse algum interesse nele além de mera curiosidade, mas foi o contrário. Ela nunca mais comentou sobre ele ou olhou em sua direção. Carla continuou a conversar com ele, mas não por muito tempo, talvez porque havia feito aquilo apenas para satisfazer Paola e se sentira culpada ao ter encontrado algo, talvez porque pensara que aquela situação toda era demais para ela lidar.


Houve outras histórias do ensino médio, mas nenhuma marcante, a maioria na qual fazíamos coisas parecidas, mas com vítimas diferentes. Continuamos conversando após a formatura, e mesmo esses desafios continuaram, ou pelo menos Paola e as outras garotas contavam alguns dos seus feitos. Quando Carla foi escalada para uma série de televisão, não muito depois de atingir a maioridade, deu a entender que havia conseguido seduzir o produtor. Ela tinha talento, é claro, mas talento não é tudo o que você precisa para subir na carreira.

Paola começou a trabalhar como modelo. Foi descoberta enquanto fazia compras no novo shopping da cidade. Seria pleonasmo dizer que conseguiu usando sua beleza, era uma modelo de nascença, tinha corpo e rosto para isso. Apenas ninguém sabia quando começaria a vê-la nas capas de revistas, para o bem ou para o não-existe-publicidade-ruim.

Mônica nunca comentou sobre algo que fez, tudo o que compartilhava era o que fazia na faculdade, as bolsas, os estágios, os intercâmbios. Deve ter crescido e se envergonhado de como era no ensino médio. Continua amiga de todas nós, mas já tem outro pensamento. É uma cientista, afinal de contas. O único ramo da sociedade em que a beleza feminina é mais detrimento do que mérito. Ainda conversamos, todas nós, de vez em quando, e Paola continua com seus jogos. Vai continuar a vida toda, talvez, ou enquanto eles funcionarem. Semana passada, vangloriou-se por ter feito um homem se apaixonar por ela. Ele já tinha planos, mas mudou tudo por sua causa.

“Quer dizer que você enfim se apaixonou por alguém?” Carla perguntou, esperançosa. Gostava de ouvir sobre romances.

“Vou parar de falar com ele. Só queria saber se conseguiria,” ela respondeu simplesmente.

Algumas pessoas fazem coisas cruéis quando são jovens e não sabem o certo do errado, outras são simplesmente cruéis, os queridinhos de Hobbes. Mas chega de falar de mim… E você? Já fez algo de horrível com outra pessoa, também? Já revelei minhas falhas, não posso ser a única, ou então vou me sentir exposta!

– Tem razão – ele riu. – Já que estamos falando disso, bem… tem, sim, uma história de alguns anos atrás. Nunca contei para ninguém, e não me orgulho dela, mas nada mais justo do que eu falar algo ruim sobre mim também. Deixa eu ver… Eu estava no quarto semestre da faculdade, foi quando…

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