Romances policiais resumidos em cinco parágrafos

Havia algo que ele não entendia sobre o caso. Se as duas vítimas haviam realmente sido mortas pelo mesmo assassino, o que as conectava? Uma stripper de Las Vegas de férias no Rio e um garoto de doze anos que jogava futebol na rua. Seus mundos não poderiam ser mais distantes um do outro. De acordo com testemunhas, os dois não se conheciam, não frequentavam os mesmos lugares, nem mesmo falavam a mesma língua. Para onde quer que olhasse, deparava-se com becos sem saída.

Jogou a pasta com as fotos das cenas dos crimes sobre a mesa. O gato pulou sobre ela e tentou empurrá-la com as patas, mas era fina demais e desistiu após espalhar as imagens sobre o vidro. Pulou até sua tigela vazia e virou-a para mostrar raiva e descontentamento, então dirigiu ao dono um olhar perfurador, julgador. Era como se estivesse observando sua alma e não gostasse do que visse. Talvez até mesmo o gato conhecesse sua incompetência. Não havia nem mesmo se lembrado de repôr a ração.

Enquanto se dirigia ao armário, percebeu o que estava acontecendo. O gato, as fotos, tudo estava confuso na sua cabeça. É claro, gatos bebem leite. O leite vem da vaca, que é ordenhada por um fazendeiro. Depois de ser pasteurizado, a bebida láctea é trazida para a cidade grande e comercializada em supermercados ou entregue diretamente ao cliente. As fotos. Havia algo nas fotos que ele não percebera antes.

Na primeira imagem, a que mostrava o garoto após o atropelamento acidental, lá no fundo. Pegou a lupa na primeira gaveta da escrivaninha. A geladeira da casa ao fundo estava aberta. Na porta dela, como se fingindo inocência, uma caixa de leite aberta estava exposta. Estivera ali o tempo todo, mas ninguém a percebera. A segunda imagem, onde o gato a havia colocado? Pegou-a nas mãos trementes. Ali está, logo ao lado do bilhete de suicídio da stripper, o copo de leite com o qual bebera os quarenta comprimidos para dor de cabeça.

Não acreditou que não havia visto isso antes. Estava tudo ali, debaixo do próprio nariz. E pensar que estivera utilizando dedução e lógica para encontrar o malfeitor. Tudo o que realmente precisava era um pouco de sorte e ajuda do acaso durante um momento de aparente obstáculo do caso. O criminoso havia cometido um grave erro ao pensar que poderia se safar. O assassino era o leiteiro! Checou se o revólver ainda estava no coldre e correu até a delegacia. O gato teria de esperar mais um pouco pela ração.

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