Se no azul mergulhasse

O ar-condicionado estava estragado. O gerente não estava na loja, mas o atendente já havia ligado para o seu Gonçalves, um português que emigrara para o Brasil quando os negócios no país natal não deram certo. Sua principal fonte de renda eram as bricolagens que fazia ao pessoal da região, mas também dava aulas de piano quando havia alunos. O funcionário nunca o havia ouvido tocar, embora sempre tivesse tido interesse em aprender a arte. Enquanto aguardava o quebra-galho, foi ao quarto dos fundos pegar uma flanela para limpar o suor da testa e deixar atrás do caixa, a mão deslizando pelos paletós e camisas nos cabideiros, como fazia costumeiramente para sentir a textura correr rápida pelos dedos. Não notou a garota mesmo após retornar à posição mais favorável da loja, o balcão perto da entrada através do qual um vento leve passava de quando em quando.

De lá conseguia ver o salão inteiro, mas ela devia estar atrás de uma bancada de exposição e se aproximara enquanto ele enxugava o rosto. Foi pego de surpresa por uma voz musical vindo de baixo; aguda, feminina, infantil.

– Você pode me ajudar?

Pensara que estaria seguro com aquele emprego. Uma loja de roupas sociais masculinas, a clientela restrita a homens adultos ou idosos e a esposas que queriam presentear o marido, mas que chegavam sem saber sua medida ou as cores que o companheiro mais apreciava. Até aquele momento, de fato pudera tranquilizar-se. A menina continuou:

– Você não trabalha aqui? – Dois olhos grandes fixos no rosto do atendente, como se observassem curiosos um animal enjaulado no zoológico.

– Trabalho – respondeu em tom controlado. – O que está procurando?

– Um presente – ela disse, os olhos para o lado agora que ele retornava sua atenção.

– Nós não temos presentes aqui, apenas roupas para homens. Há uma loja de presentes ali na esquina… – Começou a apontar para a Gift Shop, o prédio de entrada rosa cuja proprietária loira e gorda se podia ouvir da Sempre Social toda vez que estava lá.

– É um presente de aniversário para o meu pai. Quando perguntei para minha mãe, ela disse que ele não tem muitas gravatas.

– Uma gravata. Você sabe qual a cor preferida dele? Talvez seja melhor pedir para ela vir pessoalmente…

– Ele gosta de azul. Ele está sempre vestindo uma camisa azul-clara para o trabalho, então pensei que uma gravata azul-escura combinaria bem, não acha?

Ela tinha tudo planejado, uma menina de oito ou nove anos mais preparada do que mulheres de meia-idade casadas havia trinta.

– Claro. Claro. As gravatas estão aqui. – Guiou-a até o mostruário de diversas fileiras em desordem, pois sempre se esquecia de organizá-las por cor e tom. Começava a suar novamente, levou a mão à nuca e secou-a na camisa. – Fique à vontade.

Ela passou algum tempo olhando os modelos disponíveis, avaliando estampas, comparando tonalidades. Quando os olhos chegaram nas alas do topo, os lábios fechados se repartiram, às vezes ela os umedecia com uma língua vermelho-vivo que passava rápida pela superfície. Ao achar a cor que queria, ficou na ponta dos pés para alcançar o tecido enrolado. Foi a única gravata que observou nas mãos antes de entregar confiadamente ao atendente, parecendo querer deixar claro que fora amor à primeira vista.

Enquanto esperava pelo troco, observava as camisas à mostra nos cabideiros. Andava com as mãos nas costas, como em um museu, um passo sutil, a atenção de quem sabe ser capaz de provocar destruição caso toque em algo, um sentimento familiar a ele. Havia fugido da cidade natal e resignado-se a um trabalho pouco gratificante, seu único consolo a certeza de que nunca mais precisaria interagir com uma criança. A presença dela na loja tinha potencial de jogar sua vida numa espiral direto ao desastre, a teoria do caos personificada em menos de um metro e meio.

Ela era um ponto de contraste numa imagem, uma flor vibrante num quarto monocromático, cuja presença atraía mesmo o mais relutante dos olhares. Seu rosto era claro como a pele, mas rosado pelo sol e úmido pelas gotas de suor que brilhavam sob a luz fluorescente, deslizavam da raiz do cabelo e atravessavam a roupa até suas costas ainda nuas. O curto vestido de alça, bege e florido de pontos azuis e rosa, possuía uma barra que balançava acompanhando os sutis movimentos da mestra, seu único parceiro de dança o vento ocasional que percorria o estabelecimento. O tênis branco de cadarço desatado às vezes fazia um som agudo ao raspar contra o piso escuro da loja. Ela parecia consciente do barulho, parou de andar e cruzou as pernas. O vestido inercialmente moldou o corpo ainda retilíneo da dona antes de voltar à posição de repouso.

Ela virou-se após ouvir o som da caixa registradora. Seu rosto oval de bochechas pronunciadas parecia sair de foco quando se a observava os grandes olhos de íris azuis, como o mar que ele um dia vira de relance, quando estava chegando na cidade, mas o qual decidira nunca visitar. Não houvesse ela desviado o rosto, teria talvez mergulhado naquela imensidão anil para jamais retornar, pois o paraíso seria. Seu curto cabelo louro preso numa trança maria-chiquinha parecia firme e de textura agradável. Sem querer ela tocou sua mão ao pegar a sacola e o troco; agradeceu e saiu da loja. Uma transação normal para ela, o inferno para ele.

Novamente sozinho, pegou o pano de trás do balcão e limpou o suor do rosto, da testa, do pescoço, da nuca. Finalmente, soltou a respiração. Seu Gonçalves estava atrasado.

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