Texto sobre um guarda-chuva

Perdi meu guarda-chuva; ele era preto e paradoxal (o fecho não fechava). Se não o perdi realmente, foi subtraído do mundo após ordem divina. Encontrei-me solitário sob um chuvisco pelotense. Os chuviscos equivalem às garoas das garoas. Não servem para muita coisa além de importunar os óculos de inocentes.

A ida sob ele à faculdade foi maçante, mas tolerável. Na volta, porém, fiz o impensável: comprei um novo guarda-chuva. Minha intenção era modesta, um daqueles pequenos que entrariam na pasta. Prático, leve e possível de carregar o tempo todo. O parador de água ideal, realmente. Mas apenas em cidades comuns. O vento pelotense não tem nada de terreno: são sopros celestiais que almejam arrastar pessoas e prédios do mundo em que vivemos. Um minúsculo guarda-chuva não aguentaria cinco minutos de um castigo infligido por um deus que amedronta aquele do Antigo Testamento.

Restou-me a opção de um tamanho médio. A segunda escolha era a cor. Seu antepassado era preto, seria a prole preta também? Mas já vivemos num mundo sem cor, os carros que vejo na rua são pretos ou cinzas ou brancos; quando muito, azuis. Os guarda-chuvas, idem. Salvo mulheres idosas, a massa da população exibe aos céus um pano preto quando água começa a cair. Algumas moças, bravas Amazonas do mundo moderno, possuem também o passe sociológico para portar um que esboce alguma cor.

A falta de cor em carros e para-águas é algo que sempre notei e odiei. Assim, vendo-me frente a um esbelto e curvilíneo água-não-passa, retirei-o do cesto tal qual Artur outrora desencravara Escalibur da pedra. Tenho-o aqui comigo, deitado sobre a cama, observando-me escrever.

Seu cabo é de um prata barato, algumas partes já mostram a cor que está abaixo da camada superficial; ele está recheado de diversas e minúsculas bolinhas em relevo, um texto em braille que faria a cabeça de um cego dar voltas. Seu fecho fecha, o que é o essencial. Quando abro o velcro, o tecido se permite pegar um pouco de ar e se estufa para os lados. O botão diz “push” e quando você o pusha, um mecanismo desengata um suave deslize que finaliza magistralmente em um baque surdo. As hastes parecem resistentes, e há várias; acredito resistirem a fúria dos deuses em momentos de vendavais. Um tufão seria fraco inimigo perante tão firmes suportes.

Aberto, ele parece ser um parente próximo do guarda-chuva japonês. É a forma que o tecido se liga de uma junta a outra, é o ângulo do cone. É vermelho-escuro com linhas pretas fazendo com outras linhas brancas um xadrez que deu errado. Quando o fecho novamente, um clique prazeroso salta assim que o mecanismo outra vez se engancha para a próxima abertura. Olhando-o de perto quando está fechado, alguns fios se perderam e pendem teimosos, mas trato-os como os fios de cabelo despenteados da amada: podem não estar onde deveriam, mas o conjunto ainda é espetacular.

Estreei-o já ao sair da loja. Sinto-me até constrangido em falar, mas é a verdade, não havia pessoa mais feliz debaixo daquele chuvisco infernal. Talvez fosse o modo como o impede-chuva se encaixava melhor à minha altura do que os comuns, ou o fato de ter um formato diferente, ou simplesmente a cor que, mesmo escura, saltava aos olhos quando em meio ao preto dos arredores. Foram os melhores quinze reais que jamais gastei.

Precisei fechá-lo enquanto esperava o transporte sob uma marquise, mas ainda tomei meu tempo conhecendo-o, compreendendo sua altura e suas diferenças em relação ao outro. Pude reabri-lo quando desci do ônibus, mas esse foi seu último uso. Permaneceu fechado desde então. Deixei-o agora tomar um pouco de ar enquanto observava seus mínimos detalhes para descrevê-los. Havia desejado fazer do chuvisco uma garoa e da garoa uma chuva, tudo apenas para usá-lo um pouco mais. Se não isso, posso levá-lo para passear no próximo dia, ainda não decidi. Mas não importa. Ele continuará aqui no próximo dia de água, e eu certamente estarei aqui para usá-lo novamente.

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