Uma lista de objetos fálicos para você ter em mente enquanto lê literatura

Não foi apenas uma vez que ouvi pessoas da área da literatura mencionarem a presença de um objeto fálico em uma obra de arte. A presença do objeto fálico na literatura vem daquilo que acredito ser o falogocentrismo, que consiste, até onde percebo, de apontar em determinada obra objetos fálicos para depois refletir sobre a opressão do homem sobre as mulheres. Mas, para o meu ver provavelmente ignorante, basta achar um falo e soltar a criatividade até que alguém engula.

A parte teimosa dessa questão é que tais referências me foram apontadas por pessoas do ramo literário que, sabiamente, são mais instruídas do que eu no sujeito, elas sabem do que falam. Ao mesmo tempo, como por volta acontece na literatura – e não me tome como expert, minhas notas não foram excepcionais –, quase sempre a comparação ao falo me parece um tanto exagerada e, quem sabe, talvez, é bem possível, só Deus pode dizer, está ligada a uma imensa vontade de ver falocentrismo por tudo quanto é parte.

Porém, na maior vontade de ser solícito, apresento este cheatsheet para o leigo. Ao ler da literatura, mantenha-o em mente e saiba em quais ocasiões o autor enfiou um falo no texto. Tenho em mente que essas fálicas comparações são interpretações, teorias não concretas, pois nada na literatura o é. (Quase) toda interpretação é cabível, e eu realmente não tenho como refutar as análises que me foram ditas, mas em muitas delas a comparação me pareceu tão absurda que quase não havia necessidade de refuto. De todo modo, creio que seja criativo o suficiente para enfiar o falo em alguns textos literários. Se para aprender literatura necessita de exemplos, tema não, pois ao final os encontrará. Antes disso, a lista de ajuda para quando for fazer a prova de literatura:

Objetos fálicos

 

Uma banana

Uma cenoura

Uma berinjela

Um pepino

Uma tesoura

Um dedo

Um lápis

Uma colher

Uma faca

Um garfo

Uma espátula

Um osso

Um saco de bolacha

Um guarda-chuva

Uma mangueira

Uma boneca, quem sabe

Um cotonete

Uma batata frita retangular

Uma chave de fenda et al

Um canudo

Uma garrafa

Uma escova sanitária

Um cano

Um pedaço de madeira

Um bico de Bunsen

Uma vara de pesca

Um tubo de ensaio

Uma mandioca

Um berrante

Uma vuvuzela

Um pente

Uma lanterna

Uma vassoura

Uma espingarda

Um palito de dente

Uma pasta de dente

Uma escova de dente

Um desodorante retangular

Um rolo de papel higiênico quando não há mais papel nele

Uma garrafa térmica (se olhar por tempo suficiente)

Uma chave tetra (especificamente)

Qualquer coisa vendida em tubo

Uma escova de cabelo

et cætera

Espera-se que seja evidente, a partir dessa lista, que o órgão genital masculino e aquilo que os portugueses chamam de consolo não são sempre representativos daquilo que os franceses chamam de pénis e os latinos nomearam phallus. Recomenda-se imprimir a lista e fixá-la na parede com algum tipo de gosma branca, para que possa ficar sempre próxima ao olho no momento da leitura. Não mais estarás lendo Camus e um falo por você passará sem ser notado e devidamente apreciado.

Chegamos aos exemplos. Deles possuo dois, que agora exibo diante de vossos olhos:

Temos, no conhecido e querido gibi Turma da Mônica, uma garota, a protagonista, que carrega sempre consigo um coelhinho de pelúcia, com ele está sempre agarrada. Não demanda grande reflexão para que do coelho cheguemos à cenoura. No firme agarro de Mônica ao coelho, simbolicamente segura ela a cenoura que ele representa. Não seria difícil ligar a cenoura ao falo, possivelmente conectado aos seus amigos mais próximos, Cebolinha e Cascão. Os dois garotos, que sempre importunam a menina, acabam se tornando alvo de desejo. Especificamente, o desejo do falo, pois apenas com ele Mônica seria forte o suficiente para encará-los de frente. Desconsidera-se aqui sua força física, pois do que falamos é sobre algo muito mais intrínseco na sociedade. Trata-se, é claro, do patriarcado, figura-chave do falo. Embora Mônica possua maior força bruta, como mulher está sendo constantemente oprimida pela sociedade. Sua força social é fraca, e é isso o que ela mais deseja. Podemos ver isso no fato de os garotos sempre voltarem a importuná-la, mesmo após terem sofrido punições físicas. Mesmo que inconscientemente, Mônica sabe que nada além de um falo a faria ser respeitada no mundo em que vive. Sem ele, será alvo constante dos meninos. É esse, creio, o mote central que cerca a graphic novel. Assim, retira-se o elemento lúdico da obra e confere-lhe uma trama muito mais literária e profunda do que antes se cria.

Igualmente conhecido, o romance Orgulho e Preconceito, da autora Jane Austen, é admirado por leitores e leitoras mundo afora. Nele também pode-se encontrar o falogocentrismo em diversos momentos. Um deles, perto do meio do livro, é este: caminham por uma propriedade Sr. Darcy, Sr. Gardiner, Sra. Gardiner e Elizabeth Bennet, a protagonista que ardentemente deseja o primeiro. Em determinado ponto da jornada, o grupo pausa próximo a um riacho, e os dois homens tratam de discutir sobre pesca. O primeiro, além de permitir ao segundo pescar na sua propriedade, diz emprestar-lhe até mesmo as ferramentas. Entende-se por ferramentas, dentre outras, a vara de pescar. Nesse simples gesto, Austen escreve com astúcia, mostrando com tão poucas palavras o poder nas mãos de Darcy. Isto é, ao dizer que pode sem problemas emprestar ferramentas para Gardiner, Darcy lhe explicita o tanto de dinheiro que possui, o tanto de virilidade que nele há tendo em vista sua boa forma, beleza e juventude. Ademais, Elizabeth tentar escutar a conversa dos dois homens enquanto ignora sua tia que lhe fala, o que pode evidenciar até duas coisas: Elizabeth, com esse bisbilhotar, mostra a vontade intrínseca à mulher de possuir o famigerado falo, como já dizia Freud tantos anos atrás, e a rejeita da condição feminina personificada na Sra. Gardiner; ainda, pela vontade de casar-se com Darcy, ela demonstra sua vontade pelo falo dele. Lizzy é uma mulher inteligente e de grandes astúcias para sua época, assim essa ocorrência pode muito bem significar sua compreensão de que para avançar no mundo patriarcal era necessário possuir o falo, seja nascendo com um ou segurando-se ao do marido. Assim, concluo que, muito como Lizzy diz, não era atrás do dinheiro ou mesmo da propriedade de Darcy que ela estava atrás, mas sim do seu caralho.

Lucas Zanella

No blog posto geralmente textos de opinião assim como também histórias curtas. Aqui você encontrará fantasia, terror e ficção científica. Talvez até mesmo algum drama ocasional.