A Mulher na Janela (AJ Finn) – Resenha

Eu já havia ouvido falar sobre A Mulher na Janela um longo tempo atrás. Acredito que tenha feito um rebuliço grande, pois logo foi publicado e traduzido para o português, além de ter um filme prestes a ser lançado em 2020. Encontrei ele na mesma visita ao sebo que me levou a Meus Dias de Escritor, deitado sobre uma fila de livros velhos. Relembrando minha antiga vontade de lê-lo, comprei-o após ler (ou reler) sua sinopse. Nesta resenha, vou falar minhas impressões do livro em si e farei uma comparação singela com Janela Indiscreta, do Alfred Hitchcock.

INFORMAÇÕES

Título: A Mulher na Janela
Autor: AJ Finn
Original: The Woman in the Window
Editora: Arqueiro
Páginas: 352
Sinopse: Anna Fox mora sozinha na bela casa que um dia abrigou sua família feliz. Separada do marido e da filha e sofrendo de uma fobia que a mantém reclusa, ela passa os dias bebendo (muito) vinho, assistindo a filmes antigos, conversando com estranhos na internet e… espionando os vizinhos.

Quando os Russells – pai, mãe e o filho adolescente – se mudam para a casa do outro lado do parque, Anna fica obcecada por aquela família perfeita. Até que certa noite, bisbilhotando através de sua câmera, ela vê na casa deles algo que a deixa aterrorizada e faz seu mundo – e seus segredos chocantes – começar a ruir. Mas será que o que testemunhou aconteceu mesmo? O que é realidade? O que é imaginação? Existe realmente alguém em perigo? E quem está no controle?

Introdução e apresentação

A sinopse nas orelhas do romance é simples, deixando o intrigante para o leitor descobrir sozinho, mas cai no erro de finalizar com um punhado de perguntas que devem ter por objetivo fazer o leitor comprar o livro. Não as considero boas o suficiente para isso, embora as respeite por não despejar tudo o que é interessante na trama nela, diferente do que acontece no trailer para o filme. Eu estava na metade do livro, apenas então chegando na parte central, quando o assisti. Fiquei surpreso com o tanto de acontecimentos do meio e final do livro nele, além de não ter quase nada do seu início.

Em poucas palavras e tendo o mesmo cuidado com spoilers que teve a sinopse oficial, meu resumo é simples:

Anna Fox é uma psicóloga que, após uma tragédia, desenvolveu uma terrível agorafobia que a deixou confinada na sua casa já faz dez meses. Ela passa seu tempo vendo filmes policiais antigos, ajudando desconhecidos na mesma situação que ela pela internet e bisbilhotando a casa dos vizinhos com sua câmera. Esse é todo seu contato com o espaço exterior, é como descobre sobre uma traição acontecendo bem debaixo do nariz do marido, como participa anonimamente de um clube de leitura iniciado por uma vizinha e é também como vê algo que lhe choca ao ponto de ligar desesperada para a polícia e, apesar da sua condição, a tentar sair de casa para prestar socorro.

Sempre fui terrível com as sinopses dos meus próprios textos, mas acredito que essa de cima contenha tudo o que você precisa para se interessar no livro, ao menos de um modo que não estragará a surpresa.

Estilo de escrita

Não achei o romance particularmente bem escrito, pelo menos não no quesito narrativo. A ideia é boa, mas o modo como foi psicografada da mente para o papel por AJ Finn me surpreende quando considero a fama do livro, muito desproporcional ao seu conteúdo. Não comento sobre um problema de tradução, mas algo tão íntimo do texto que tradução nenhuma poderia melhorar ou piorar.

Em algum momento, uma escritora que li criticou o uso de parágrafos de uma única frase. Não consigo encontrar sua citação na internet. Deus, talvez tenha até mesmo sido invenção minha. Na busca pela citação, descobri que The Better Editor concorda comigo, embora à primeira vista pareça que não. A questão é simples, o livro está repleto deles.

Não os abomino completamente.

Pelo menos acho que não.

Entretanto, há momentos propícios e despropícios.

Às vezes, não têm razão para existir.

Parece que o enter do escritor estava com defeito.

Acionando-se sem ser teclado.

Se o assunto é diálogo, compreendo perfeitamente a decisão de deixá-lo mais fluido fazendo apenas observações rápidas em vez de um texto completo. Meu maior problema é sua utilização exacerbada durante momentos de tensão. O parágrafo de uma única frase é o curinga perfeito para o mal escritor, pois ele dá a sensação de emoção sem a necessidade impertinente da boa escrita. Não há a necessidade de escrever um parágrafo que, como um livro em miniatura, começa num ponto baixo e termina num culminante, conclusivo, ou com a frase perfeita para a situação. Esse estilo de parágrafo é um modo de trair o leitor, que pegou o livro para ler e está tirando tempo do seu dia para completá-lo. O mínimo que um escritor precisa ter é respeito pelo tempo do leitor. Assim, um romance não deve ter trapaças para atrair a atenção, deve fazê-lo genuinamente, através de 1% de talento e 99% de suor. AJ Finn precisa estudar a fundo os parágrafos de Truman Capote em A Sangue Frio. São geralmente longos, mas bem construídos.

Enquanto continuo a permitir-me criticar a escrita de um cara que, fosse pobre antes, enmilhonarizou-se com um único romance, gostaria de falar sobre algo que, acredito, praga muitos livros modernos. Não sou grande fã de referências, e o livro está repleto delas.

Imagine, por exemplo, essa frase:

No dia anterior, havia ido ao mercado da esquina comprar pão. Agora, estava deitada no divã lendo um livro em francês com outros três sobre a mesa de centro ao lado.

Sabemos algumas coisas sobre a personagem: é uma leitora, talvez leia rapidamente, e sabe francês. Se nos permitirmos algo a mais, podemos ainda assumir que não sai muito de casa, que gosta de conforto e mora numa casa de mobília bonita, pois sempre associei mesas de centro à beleza e à la finesse. Se levarmos A Janela Aberta e alguns livros modernos ao extremo, o que temos é isso:

No dia anterior, havia ido ao Zaffari da esquina comprar um Seven Boys. Agora, estava deitada no divã lendo Manon Lescaut, com As Ligações Perigosas, A Espuma dos Dias e Germinal nos originais em francês sobre a mesa de centro ao lado.

Talvez o leitor esteja pensando que parágrafos assim não são nada de mais, mas imagine um livro inteiro escrito desse modo. É um ótimo meio de anotar o título de algo que você nunca lerá, mas não há razão para ser tão específico. Em vez de romances, AJ Finn usa filmes antigos. São filmes famosos, o que talvez levará o leitor a dizer que deixa mais compreensível, mas os livros que escolhi estão todos em listas de mais famosos que encontrei na internet – afora Manon, que coloquei porque gosto, ainda que faça parte das leituras de escolares franceses, como Machado faz aqui. Seven Boys, assim como Pullman, já vi em vários supermercados e encontrei na internet como participantes de uma pesquisa sobre pães pelo MinhaSaúde. Encontrei o Zaffari numa lista como o quinto dos maiores supermercados do Brasil. Se eu não tivesse ido a Porto Alegre certa vez, nunca imaginaria que isso fosse um mercado. Pense agora em um livro escrito desse modo, mas traduzido para o inglês e sendo lido por pessoas que certamente não teriam a referência.

As referências mais aceitáveis que vi são, ironicamente, sobre outros romances, como “Judas, o Obscuro”, que é lido por um clube de livros observado pela protagonista com sua câmera. Há duas ou três referências aos livros desse clube e estão bem distantes uma da outra, assim não se tornam maçantes.

Isso é algo muito particular a mim, mas sinto-me desconfortável ao ver essas citações em livros. Não necessariamente os filmes clássicos, mas coisas que poderão desaparecer em pouco tempo. Há, na minha estante, um livro do Stephen King no qual a protagonista entra no MSN e checa o MySpace. Especialmente em se tratando da internet, esse tipo de referência apenas datará o livro, o que talvez não seja problema para um escritor que quer apenas ser um bestseller, ficar rico e dane-se o futuro do livro, mas que impactará sua longevidade. Mesmo que o romance sobreviva, algo será perdido assim que novos sites aparecerem, novas lojas abrirem e outras fecharem.

Para pegar um exemplo próximo, há um momento na minha novela Os Muitos Rostos de Brockveld em que o protagonista procura informações sobre uma pessoa na internet. Na primeira versão, vejo claramente a frase “pesquisou seu nome no Facebook”; na última, “nas redes sociais”. O único sobrevivente foi a Wikipédia, pois considerei como algo que permanecerá por ainda um longo tempo, muito diferente de redes sociais (não se esqueça de me seguir no Google+ e adicionar no Orkut!). Ainda assim, se revisasse novamente e achasse a alternativa perfeita, acho bem provável que mudaria para algo mais genérico.

As referências do livros aos filmes clássicos é algo que não o datará, afinal são clássicos por uma razão, mas nesse caso são apenas abundantes demais.

Policiais razoavelmente reais

Se tem algo que sempre me incomoda em livros desse gênero, são os policiais que não agem de forma policial, que ignoram pistas ou desconsideram o que os protagonistas dizem apenas para tornar a trama mais complicada. É algo barato que escritores usam para criar tensão e mostrar o porquê de o nosso protagonista ser o único que pode resolver o grande mistério.

Nesse romance, eles são bastante reais, embora não tenha pensado assim de início. Em determinado momento, algo tenso acontece com a protagonista. É quando penso: “Claro que ela não vai ligar para a polícia apesar de agora ter uma base sólida de evidência”. Ela, porém, liga para o detetive que lhe deu seu número. Essa simples ação já me surpreendeu bastante. Imaginei também que os policiais a ignorariam, mas foram atenciosos e correram até ela, ainda que uma detetive tenha levantado a hipótese de ela ter enviado o e-mail para si mesma, algo inteiramente compreensível dada a situação, mas a ser discutido com o parceiro em particular.

O celular de Schrödinger

É o celular que, ao mesmo tempo, está e não está com a protagonista. Mais de uma vez ela o tem na mão ou perto de si, no início do livro penso que ela o utiliza com frequência razoável, mas em outros momentos ele está… na cozinha? Ou será que deixou na biblioteca? Talvez em cima da cama?

Quem decide o lugar do celular é o autor. Quando ela precisa fazer uma ligação, está com ele. Quando precisa, mas o momento deve ter tensão, está em outro lugar. Isso aconteceu vezes o suficiente para eu perceber. Se for para ser assim, é melhor usar o clichê do celular sem sinal qu- o quê? Ah, você vai usar esse clichê em outro momento? Entendo, é compreensível.

Explicações explicadas

Assim que ela apareceu, soube que GrannyLizzie seria importante para a história. Você não precisa ser nenhum gênio para perceber. Isso, ou o escritor seria pior do que eu pensei e ela não teria importância nenhuma – não atuaria nem como red herring, seria apenas inútil. Assim, quando foi revelado que ela era Ethan, coisas começaram a fazer certo sentido e a se encaixar, o que aprecio. Coisas como a razão para ela ter a foto do e-mail no celular e o login dessa conta no computador também fizeram sentido após a revelação.

Plot twists

Não considero o primeiro plot twist algo excepcional. Eu não estava esperando por isso, é claro, mas “eles não existem” é quase uma piada, o tipo de plot twist que as pessoas usam para fazer troça de plot twists. Acho que nunca vi ele ser utilizado seriamente. Esse livro é de 2018, gostaria de lembrar a todos, então não há desculpas. Relevo-o em partes porque teve uma explicação interessante, está ligado a outras coisas, como a agorafobia da protagonista. Em outras partes, não o relevo porque não faz muito sentido o modo como o acidente é descrito. Eles caem 200 metros, a filha e o marido quase não sobrevivem (morrem depois do acidente, então sobrevivem pelo menos a ele) e Anna precisará ver Binna uma vez por semana por dez meses por conta de fraturas, mas no momento em que ele acontece ela está andando como se nada tivesse acontecido. Posso acreditar na adrenalina que sente no momento inicial, mas não após cochilar e acordar. Se ela precisará de tanta ajuda após, então ela não teria como arrastar um homem adulto do carro para fora, de fora para o carro e então novamente para fora com a coluna naquele estado. Uma criança já seria uma grande dificuldade.

Considero esse o primeiro simplesmente porque não penso que a revelação da Jane verdadeira seja um. É algo que impacta a narrativa, mas não teve o mesmo efeito dos outros em mim. Além disso, Alistair já vinha falando disso havia algum tempo.

O segundo plot twist, então, é a revelação de que Ethan é o assassino e Alistair e Jane apenas red herrings, pessoas de quem o leitor desconfiará, mas que não serão os vilões de fato. Apenas não acredito que sua revelação faça muito sentido, parece forçada. Agora que penso, parece óbvio após todos aqueles “ele é um bom garoto, tão gentil” da narradora, mas não de modo que pensemos “ah, é claro que foi ele, aí está a prova e nós nem percebemos!”. Não engulo a história de Anna ser uma má psicóloga e por isso não ter percebido, especialmente porque em outros momentos ela havia notado seus desvios de olhar, por exemplo. Se houvesse indicações do tipo anteriormente, seria algo mais compreensível, mas tudo nos leva a crer que Anna era uma psicóloga suficientemente competente. Seu próprio professor a chamou para trabalhar junto dele como iguais, afinal de contas – assumindo que não houvesse nada romântico na época.

Final

O livro é dividido em cem capítulos e separado, ainda, por dias, começando em 24 de outubro e indo até 15 de novembro. Desconsidero o pulo de “seis semanas depois” porque sempre detestei finais assim. Após a primeira revelação e a compreensão de Anna de que ela havia inventado tudo, estava dando crédito ao livro por ainda ter cem páginas, então não acabou assim que o ponto culminante chegou, mas levaria seu tempo arrumando as coisas. Invenção minha.

Não apenas o livro continuou, mas fez sua revelação verdadeira faltando vinte páginas para o fim. Não bastasse isso, seu último capítulo é um salto temporal para quando tudo já está “bem”. Dou crédito por não ter resolvido tudo e, assim, algumas coisas ainda terão de ser trabalhadas, como a agorafobia da protagonista, mas não consigo perdoar essa mancada. Escritores acham que não seria interessante a chegada do policial? Façam ela interessante! Eu quero ver a surpresa de Little, ele pensaria o quê? Que Anna matou porque ficou louca? Que provas ela tinha de que ele era o assassino? A confissão de Alistair ajudará ela, mas continua tendo muito material interessante para pelo menos algumas páginas.

A Mulher na Janela Indiscreta

No trailer para o filme baseado no livro, algumas pessoas pensam se tratar de um remake da obra de Hitchcock, Janela Indiscreta. Não os culpo, estamos na época dos remakes. Já conhecendo o filme de antemão e achando ser o momento perfeito para assisti-lo, terminei-o não faz muito tempo.

De fato, é difícil dizer que o livro de AJ Finn seja apenas uma homenagem. As tramas são tão parecidas que está mais perto de cópia, embora ele tenha feito modificações consideráveis. Não podemos falar de coincidências, pois não apenas a protagonista menciona o diretor de cinema como seu favorito, ela até mesmo assiste a Janela Indiscreta pelo menos duas vezes em momentos diferentes.

Não preciso dizer que o filme é melhor, mas quero mencionar algo muito diferente entre os dois e que considero um ponto fortíssimo na obra de Hitchcock. Como já disse, em histórias do gênero ninguém costuma acreditar no protagonista. Embora isso aconteça em um momento do filme, o personagem de lá conta com ajuda de duas mulheres e um detetive, que apenas abandona o caso no momento em que todas as pistas parecem mostrar que nada havia acontecido. A ajuda dos três dá mais fluidez à história, exatamente do tipo que falta em A Mulher na Janela, além de ser um clichê quebrado em 1954 que porém ainda vemos o tempo todo na literatura e cinema. O romance de AJ Finn faz justamente o contrário, ninguém acredita na protagonista seriamente e mesmo a polícia desiste facilmente do caso.

Ironicamente, as duas obras, acredito, possuem um final decepcionante e minhas críticas para os dois são praticamente as mesmas que fiz na sessão anterior.

Recomendação e conclusão

Como já disse, não considero A Mulher na Janela uma excelente leitura. Acredito que há aqueles que adorarão o romance, assim como há pessoas que adoram comer baratas ou acreditam que beber sua própria urina seja algo saudável.

Não se sinta mal por eu dizer isso do livro. Um jornalista do The New Yorker fez uma matéria sobre AJ Finn que mostrará por que você não precisa ficar com pena dele – eu não tomaria tudo como verdade, e em certos momentos há muitos “ele teria dito isso”, “teria feito aquilo”, mas o que há de confirmação é surpreendente. Apenas li o artigo após ter escrito o restante da resenha, então a personalidade do autor não foi levada em consideração na crítica, assim como não teria sido mesmo que tivesse lido o artigo antes da escrita.

Um ponto positivo para o romance foi que o li rapidamente – tem muitos parágrafos de uma única frase, o que é ótimo para isso, uma razão para eu os adorar. Se você não tiver o que ler no momento, pode ser uma boa ideia pegar esse romance num sebo, preferencialmente. Se tiver bom gosto, não será sua melhor leitura do ano. Quanto a mim, tenho Tess Gerritsen, Rubem Fonseca e Fred Vargas em cima da escrivaninha. Mas o ano já acabou.

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