Divórcio (Ricardo Lísias) – Resenha

Não faz muito tempo, uma amiga estava se desfazendo de alguns livros que leu e não gostou ou não leu e não lerá. Ela me mandou uma foto de uma breve pilha da qual me disse para escolher o que quisesse. Nela, reconheci um livro publicado pela Alfaguara, editora que para mim tem boa credibilidade por ter um design consistente e por publicar Nabokov. Do monte, escolhi para mim Divórcio (2013), de Ricardo Lísias. Após dias de chuva, apareceu em meu apartamento minha amiga e meu novo livro. Li-o em menos de 24 horas. Ou seja, ele é bom… não é?

Título: Divórcio
Autor: Ricardo Lísias
Editora: Alfaguara
Páginas: 240
Sinopse: Em agosto de 2011, casado há 4 meses, o narrador de Divórcio encontra acidentalmente o diário da esposa em que, entre outras coisas, ela escreve: “O Ricardo é patético, qualquer criança teria vergonha de ter um pai desse. Casei com um homem que não viveu.”.
“Depois de quatro dias sem dormir, achei que tivesse morrido”, o narrador, Ricardo Lísias, desabafa. A partir de então, descreve o que chama de seu desmoronamento e a tentativa de compreender o que o levou ao ponto crítico. A literatura, e treinos de corrida cada vez mais intensos, servem para que alguma lucidez retorne a sua vida. […]

Minha amiga leu esse livro para uma disciplina de autoficção da qual também fiz parte. A autoficção é definida facilmente: meio autobiografia, meio ficção. É a admissão de que um livro de memórias é falho porque se baseia nas lembranças do autor e, assim, há elementos esquecidos ou unilaterais. A biografia de um traidor falaria de como a mulher não o satisfazia. A da traída, do seu sofrimento após a descoberta. Somos sempre os mocinhos da nossa história.

A autoficção é, de certo modo, um meio de assumir os problemas da autobiografia, ganhando ainda o poder do ficcionismo, invalidando repúdios do tipo “não foi assim que aconteceu”.

Para a disciplina de que comentei, li o romance Diário da Queda (2011), de Michel Laub, e gostei bastante. Não posso dizer que Divórcio seja semelhante a Diário. Enquanto um é uma excelente amostra de como a autoficção pode ser literária, o outro dela se distancia consideravelmente.

NARRATIVA E ESTRUTURA

O personagem central do livro, também nomeado Ricardo Lísias, está casado há quatro meses com uma mulher cujo diário descobre ao acaso. Nele, encontra escritos horríveis sobre sua pessoa, o que o faz terminar o casamento. No restante do livro, seguimos seu retorno à forma através da escrita do próprio romance, reflexões pessoais e a corrida, que o leva a competir na São Silvestre.

O romance é escrito em primeira pessoa e composto por capítulos e “fragmentos”, como chama o narrador. Creio que esses últimos fizeram minha leitura ser rápida: sempre fui fã assíduo de capítulos curtos e a divisão em fragmentos é a medida perfeita.

Os capítulos em si são de tamanho moderado e nomeados de “quilômetro”, referindo-se à corrida (de São Silvestre ou para longe da esposa e de tudo o que ela representava, culminando num renascimento? Uma análise grátis para você, estudante universitário). Além dos fragmentos do narrador, há também outros, em itálico, que indicam passagens do diário da ex-mulher. Nelas, podemos ver as razões para o personagem central ter pedido o divórcio.

O romance inicia subitamente, não do melhor modo possível. Creio ser desconsertante demais, mas o início confuso parece estar na moda. O desastre já aconteceu e estamos ainda nos acostumando à escrita e narração do narrador. Ele se lembra dessa época da vida e o que acontecia.

Pode-se dizer que a confusão é proposital, um modo de inserir o leitor no psicológico conturbado do personagem, e nesse caso acho ótimo. O primeiro escritor que teve essa ideia estava certo: o melhor modo de fisgar o leitor é deixando-o confuso, isso o instiga a continuar lendo um livro cuja história, logo de início, não compreende.

UMA METÁFORA REPETIDA PERDE SUA FORÇA

Metáforas são boas, por isso todos os grandes e pequenos escritores as utilizam. Sentir-se sem pele, em carne viva, após um trauma é uma ideia boa, a exploração de que qualquer toque lhe faz mal sugere a desconfiança das pessoas ao seu redor, pois o psicológico da vítima foi abalado ao extremo; o próprio narrador diz ter morrido. Aos poucos mas conseguindo, Ricardo recupera sua pele, começando pela sola dos pés, então a canela, até renascer por completo e poder viver novamente, longe do trauma.

Após ler todas as 240 páginas de Divórcio, posso dizer com confiança que Ricardo Lísias pensou numa metáfora boa e decidiu não utilizar nenhuma outra.

A descrição de seu corpo como sem pele é algo que perpassa todas as páginas do romance, e não apenas de modo metafórico. Encostar-se na parede do chuveiro o machuca, um tapinha nas costas dói, o reboque de um muro o arranha… Estamos falando de um homem que parece ter sido literalmente descascado.

Durante um banho, o narrador comenta que seu pênis não era mais pele e glande, mas toda a extensão era uma glande. Também escreve (p. 48): “Achei uma cueca larga e, embaixo de uma bermuda ridícula que trouxera certa vez da Bolívia, meu pau ficava mais livre e ardia bem menos ao trocar a roupa.” Se a ideia for juntar à metáfora de exposição algo que sugere a falta de sexo, um tema que reaparece no livro algumas vezes, creio ser falha.

Em algum momento da minha leitura, tive a ideia de registrar todas as vezes em que o narrador usava a mesma metáfora, mas minha memória é mais falha do que ela, então passava vários capítulos sem tomar nota.

“Dois [alunos] me deram tapinhas nas costas. Doeu por causa da carne viva.”, p. 61

“Perdi a pele do corpo, pensei na frente da lanchonete, e a capacidade de organizar minha vida.”, p. 61

“[…] uma moça saiu da cozinha para bater nas minhas costas. […] Como estava em carne viva, doeu.”, p. 62

“Encostei-me em um muro. O reboque arranhou meu corpo sem pele.”, p. 80

“Resolvi buscá-la no aeroporto para que, de uma vez só, ela visse o rosto sem pele do filho.”, p. 81

“No meu rosto, a membrana que substituíra minha pele continuava firme.”, p. 162

“Coloquei as palmas das mãos sobre os joelhos. A película está ali.”, p. 163

Repare que ela está numa página e reaparece logo na próxima, quando não há duas na mesma. Minha escolha não foi proposital, mas, após notar o padrão, percebi que a 80 estava sem par e, tiro certo, encontrei outra na 81.

PROBLEMAS COM O JORNALISMO

A ex-mulher de Ricardo (se existiu e era como descrita) é jornalista. No romance, notamos um ódio do narrador não apenas para com a antiga esposa, mas com toda a classe de colegas de profissão. São imorais, pessoas que consumem drogas e depois colocam na capa dos jornais algo sobre como esse é um problema dos pobres. Que fique anotado que Ricardo não é avesso às drogas, tem muita cocaína e um pouco de ecstasy em algumas páginas, mas critica veemente a hipocrisia dos jornalistas.

No meio do ódio, encontramos algumas ótimas críticas ao jornalismo, como ao fato de estar muito ligado ao que dizem suas “fontes anônimas”, o que é dito em off e ser uma rede de fofocas capaz de destruir a vida de alguém. É uma crítica muito atual, já o era na época, mas hoje, na competitividade eletrônica, creio que a ética profissional e moral seja jogada janela afora em troca de um furo ou de serem os primeiros a publicar, verificação que se dane. A internet da qual os jornalistas (segundo o narrador) têm medo possui parte da culpa, mas a maleabilidade do caráter da classe também deve ser observado. Ricardo mesmo escreve que não são todos, mas deve ser um número considerável dentre a imprensa de maior circulação.

RICARDO LÍSIAS (NARRADOR): O MOCINHO DA HISTÓRIA?

Escolhi interpretar a metáfora da “troca de pele” como um “renascimento” longe da ex-mulher, mas há outra possibilidade. Se, como os jornalistas amigos da antiga esposa, estivermos decididamente contra Ricardo Lísias, podemos facilmente ver nesse elemento uma admissão do seu caráter de cobra, animal mais ligado à ideia de falsidade, um ser traiçoeiro, como alguém que está mentindo sobre a ex-mulher na tentativa de humilhá-la.

Não seria difícil chegar a essa conclusão, visto a narração de algumas cenas de sexo entre ele e a antiga esposa, como a da página 139. Alguns capítulos antes, ele também sugere que ela possui um fetiche por lugares públicos ou ser vista, pois atinge o orgasmo rapidamente devido, ele crê, à janela que ficara aberta sem ele perceber. O narrador também relata que ela lhe dava tapas enquanto ele fazia sexo oral.

Em determinado momento do romance, ele relata uma experiência sexual com outra pessoa, em um parque da Unicamp, pelo que me lembro. Diz ele que os dois talvez até queriam ser vistos, mas, nessa hora, o fetiche não parece ser algo grave e depravado. Também é possível que a ocorrência não tenha sido tão marcante na sua segunda repetição.

A aparição dos fragmentos do diário da ex-mulher não tem, necessariamente, uma ligação com o que se estava falando anteriormente. Durante o processo de cura do narrador, eles parecem funcionar como uma lembrança súbita, um castigo do psicológico por estar se sentindo melhor, um golpe para voltar a se sentir machucado, prova disso é o fato de eles sumirem nos últimos capítulos, quando ele está ganhando sua pele de volta.

Quando reaparecem, estão incorporados ao texto, como se fosse uma aceitação ou simplesmente significasse que já não o machucam mais (outra análise de graça). Esses fragmentos também se diferem bastante da escrita do narrador da história, o português é menos cuidado, o estilo é outro. Se foram retirados exatamente do diário, são uma escrita casual; se foram modificados para ficar assim, seria uma possível tentativa de descredibilizar ainda mais a ex-mulher. Todavia, é impossível saber a versão real, pois no romance nos é revelado que o original e a cópia do diário foram destruídos. “Conveniente,” você pode pensar caso esteja do lado da ex-mulher.

PARTE INEXPLORADA

Travestis são mencionados com certa frequência na narrativa, em especial um chamado Ramona, com quem o narrador possui, junto da garçonete de uma lanchonete, uma espécie de amizade. Em determinado momento da história, ambas as personagens encorajam Ricardo a escrever um romance sobre esse grupo marginalizado. Ele começa o esboço dos personagens.

Mas Ramona desaparece e não mais retorna à história, o narrador diz que nunca mais a viu. Se foi uma pessoa real, acho interessante que seu possível assassinato tenha passado apenas nas entrelinhas da narrativa. Creio essa ser uma possibilidade por conta da liderança brasileira no ranking de assassinatos de transsexuais. (Estudantes de Letras, vocês estão anotando isso??)

Se Ramona sempre inexistiu, creio que seu fim súbito e sem explicação faça um desserviço para o romance. A própria personagem não tem muita importância ou agência, sua inclusão era desnecessária.

DESMISTIFICANDO UM MISTÉRIO

Se eu escrever aqui que a ex-mulher do narrador de Divórcio, além de ter mantido um diário no qual escrevia atrocidades sobre o ex-marido, o traiu com outro homem, ninguém se surpreenderá.

Sabe-se que aconteceu com um jurado no Festival de Cannes de 2011. Como a crítica literária está aí para desmistificar o que antes era mistério – delataram até a ilha da Moreninha! –, revelo aqui que se trata do diretor Mahamat-Saleh Haroun, que se encaixa em tudo o que foi dito, não apenas sobre Cannes, mas também sobre uma Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Não sei o que me levou a pesquisar sobre isso, se a vontade de saber quem era X ou a dúvida se conseguiria. No fim, não foi difícil descobrir.

REPETIÇÃO PROPOSITAL?

Na página 173, o autor diz que “Divórcio é um livro repetitivo.” Embora haja a repetição de coisas que compreendo como tiques literários, como a de uma frase da mulher dizendo que “Notre Dame é um patrimônio histórico da humanidade”, outra sobre Lars Von Trier ser uma persona non grata no Festival de Cannes, o fato repetido de que a avó de Ricardo morreu durante o 11 de setembro (mas no Brasil) e ainda quando o narrador fala “Só morro mais uma vez”, frase que repete como um mantra, promessa feita logo no primeiro fragmento. Essas repetições eu entendo.

O que não compreendi foi por que dois fragmentos, começando na página 159, são quase idênticos a outros que apareceram várias páginas atrás. Trata-se de um pedido por e-mail de Ricardo para tomar café com duas pessoas que conheceu através de sua ex-mulher, o aceite inicial do interlocutor, seguido de um e-mail da antiga esposa relatando que ela contou “a verdade” para essas pessoas e o silêncio que segue. Na repetição, porém, temos uma continuação dessa situação, o e-mail que ele escreve xingando as duas pessoas e uma resposta que recebe. O sentido dessa repetição, nunca entenderei.

TANGENTE: EDUARDO CUNHA (PSEUDÔNIMO)

Em Divórcio, vemos que Ricardo Lísias tem alguns problemas com a “justiça brasileira” com a qual lhe ameaçam sem dar frutos. Ele diz não ter medo dela, e talvez continue não tendo, mas enfrentou-a em um caso perdedor. Escreveu um livro chamado Diário da Cadeira (2017) e publicou-o como “Eduardo Cunha (Pseudônimo)”, com os parênteses mesmo. Trata-se de um político brasileiro real que foi preso também em 2017. Se ele ou a editora achou necessário colocar um parêntese no falso nome de autor, já se sabia que poderia dar merda.

Dessa vez, o jeitinho brasileiro falhou e autor e editora pagaram caro. Não ligo para política brasileira e tampouco sei o suficiente da pessoa envolvida no processo, mas a jogada de publicidade velada por uma camada de crítica e mascarada por pseudonímia não lhes foi favorável. Não há publicidade ruim, mas há um problema em recolher todos os livros já vendidos devido a essa publicidade. O caso primeiramente não fruiu como Cunha gostaria, mas em 2020 saiu a ordem de recolhimento, conforme li no Estadão.

CONCLUSÃO

Acredito que algumas das minhas dúvidas sobre Divórcio me seriam esclarecidas numa reportagem do Globo sobre a “histeria” que esse romance causou. Não tenho como saber, porém, pois só posso ler a matéria se eu assinar o jornal. Fica a incógnita do quanto desse livro é real. Tudo? Nada? Ricardo Lísias (narrador) não nos ajuda muito, pois diz primeiro que “tudo o que escrevo é real, não há nada de fictício” e depois que “tudo é ficção.” Essa eterna dúvida é a alma da autoficção, afinal, e apenas os envolvidos seriam capazes de dizer o certo.

Divórcio não é um bom romance e não recomendo sua leitura. Fico com medo de criticar esse romance dizendo não possuir literariedade, não porque talvez tenha, acredito piamente que possui pouca, mas porque sou incapaz de dizer a razão. Não parece haver um cuidado com a linguagem, o que quero naquilo que leio, mas todas as obras que são mais autobiográficas do que ficcionais me soam assim. Realmente, em comparação a uma obra literária, Divórcio está mais para o lado de ser um mero “livro de corno”, como disse um jornalista no romance e também minha amiga.

Para mim, o livro fica aquém dos dois gêneros mesclados. Como ficção, não é muito agradável de ler. Como autobiografia, não me interesso pela vida contada. Ainda assim, tirei algumas lições do romance, ele me causou algum efeito, me fez refletir em certas partes. A literatura é assim. Algumas postagens do Facebook também.

Inscrever-se
Notificações
guest
Não será publicado
0 Comentários
Feedbacks de trechos
Ver todos os comentários