No gramado, ao anoitecer

Desastres não acontecem em cidades pequenas. Quando um de fato surge, não sabemos o que fazer, não fomos treinados para a eventualidade improvável, mas possível, de acontecimentos dos mais variados.

Eu brincava com Gabriel, nosso vizinho, sempre que podia. Não se pode dizer que ele “vivia doente”, pois não realmente vivia. O que ele tinha eram dias bons que iam e vinham ao seu bel-prazer, às vezes chegavam e ficavam por semanas, até mesmo meses, fazendo com que todos se esquecessem dos problemas do passado, então a sã saúde partia e parecia ter feito as malas, se instalado em um lugar distante, sem planos de retorno. Durante os anos em que ele morou ao lado da nossa casa, o último caso era o mais frequente. Após semanas de cama, retornava ao sol como um albino recém-chegado a uma praia carioca. Eu temia que ele fosse se queimar demais e, quando nos encontrávamos, preferia ficar à sombra, mas ele ansiava a liberdade ensolarada, não o desespero abrumado que o lembrava do seu quarto, cuja janela dava para uma parede tão próxima que impedia a passagem dos tais raios de vitamina D que ele carecia.

Meu aniversário havia sido duas semanas antes e meus pais fizeram uma festa para os colegas de escola, parentes e amigos. Gabriel viera, estava bem naquele dia. À noite, quando todos haviam ido embora, abri o restante dos presentes e brincamos até que nossos pais encerraram a conversa. Meu padrinho estava viajando, mas telefonara para me desejar feliz aniversário e prometia levar-me um bom presente da cidade em que estava. Chegou duas semanas depois com um embrulho na mão. Era um pacote de presente vermelho metálico, cheio de dobras, a abertura embrulhada não com o lenço de sempre, mas lacrada com uma fita adesiva transparente que me foi grande inimiga. Agora reconheço isso como sinal de que ele não conseguira reatar o relacionamento com minha madrinha.

Não era surpresa que fosse um carrinho de brinquedo, já que fora o que eu mais havia ganhado, pois era aquilo com o que eu mais brincava. Um carrinho de metal amarelo. Eu tinha alguns parecidos, mas aquele era maior, fiquei impressionado. Devia ser réplica de alguma marca, mas não saberia dizer de qual. O que me vem à cabeça é um carro antigo, mas podia ser novo na época. Era pesado, mas rodava bem, fazendo o mesmo som dos companheiros menores. Eu queria mostrar ele ao Gabriel. Disseram-me para não irmos longe e voltarmos antes do anoitecer.

Não precisei esperar depois de apertar a campainha da casa vizinha, a mãe dele abriu a porta e eu perguntei se ele poderia sair para brincar. Apesar de ele ter estado bem durante meu aniversário, estava de cama novamente. “Posso ir no quarto dele?”, perguntei. Mas a doença da vez era catapora, e estava demorando para ir embora, então era melhor eu não entrar em contato. Na escola, uma de minhas colegas havia faltado uma semana de aula pela mesma razão. Ela também estivera na minha festa de aniversário. Apenas pedi para que ele fosse lá em casa quando estivesse melhor.

Como eu não queria voltar ainda, andei pela calçada enquanto o carrinho rolava verticalmente pelas paredes e muros. Ele precisava fazer longos saltos quando havia vãos, mas que eram certamente menos arriscados do que algumas das manobras do irresponsável motorista. O som do motor, estranhamente, tinha voz de menino, assim como os choques na pista, o vento correndo pelo vidro entreaberto e as guinadas que ninguém, nem mesmo o condutor, poderia prever. Quando cheguei a uma parte do quarteirão sem paredes por perto, o carro começou a andar pelo meu braço, silencioso, pois eu já não tinha mais saliva.

A entrada para uma das casas parecia um beco misterioso que me levaria a um lugar desconhecido e, quem sabe, mágico. A casa fora construída ao fundo, no espaço que ficava entre as vizinhas. Não era tão diferente das outras, de tamanho normal e com uma varandinha que dava para um gramado. O caminho do beco, de pedra brita e com dois rastros mais claros e achatados, conduzia à garagem. Um carro vermelho ainda estava do lado de fora, como se houvesse a possibilidade de ir ao mercado. Não era uma moradia bem protegida, mas, considerando o quão escondida estava, não devia importar. Cheiro de poeira e grama fresca, não era bom, um sopro que entrava no nariz rápido demais, sem ser convidado e impossível de barrar. O sol do fim da tarde fazia o muro lançar uma sombra no gramado. Havia um homem deitado; ao lado dele, um rastelo caído e um montinho de grama. Era uma posição desconfortável, talvez por isso eu soubesse que ele não estava apenas descansando após um longo e cansativo trabalho. É difícil dizer quando foi que pensei “esse homem tá morto”, mas não deve ter sido muito depois de vê-lo. Imagino que tenha sido um ataque cardíaco.

Deixei meu carrinho cair nas pedras, dei meia-volta e estava quase saindo do pátio quando voltei para pegar o brinquedo. Olhei uma última vez para o homem. Não muito gordo, cabelo presumidamente preto, já que não conseguia vê-lo na escuridão crescente, camisa clara, bermuda escura, um chinelo de dedo branco no pé, o outro virado para baixo na grama. Mesmo que mínima, havia ainda a possibilidade de salvá-lo com uma massagem cardíaca ou cuidados médicos de pessoas competentes. Se eu tivesse corrido de volta para casa e avisado meus pais, tudo teria acabado bem.

Mesmo que não fosse possível trazê-lo de volta à vida, pelo menos teria poupado a família de encontrá-lo naquele estado. Talvez a filha estivesse em frente à escola, os olhos buscando o carro vermelho do pai atrasado. Pouco a pouco, os colegas de classe vão-se embora, as amigas não podem mais esperar junto dela, mas os alunos dos outros anos, que ela porém não conhece, ainda aguardam seus pais. Então mesmo esses ouvem um “como foi a aula?” vindo abafado de dentro do sedã de janelas fechadas. Em algum momento, ela desiste. Enquanto caminha a longa estrada de volta para casa, ela reclama da família. Vai fazer um escândalo, ah, se vai. Não podem dizer que é injustificado. Ela sempre ajuda, sempre é responsável e cuida para não estorvar o pai, que não é nem mesmo capaz de pegá-la na escola. Ao chegar enfim, suada e pisando firme nas pedras britas da entrada, vê que o homem jaz morto no quintal, perto dele o rastelo com o qual recolhia a grama recém-cortada, o chinelo de dedo atirado ao lado, como se ele houvesse tropeçado quando se virou para pegar a chave do carro.

Não corri de volta para casa, caminhei. O carrinho estava preso na minha mão, para não cair novamente, mas não brincava com ele. Minha mãe estava na frente de casa, meu pai e padrinho voltando da direita, cada um de um lado da rua. Quando ela me viu, correu até mim, me deu um tapa no traseiro e começou a brigar. Não ouvi muito bem o que ela dizia, mas entendi que estivera preocupada porque eu saíra de casa havia uma hora e meia, mas achei que estivesse inventando aquilo, já que não fazia nem vinte minutos desde que eu falara com a mãe do Gabriel. “Já pra dentro”, ouvi em meio a outras palavras, pois meus ouvidos estavam acostumados com aquelas. Entrei em casa e brinquei com o carrinho na sala enquanto meu pai dizia para minha mãe se acalmar e meu padrinho não sabia exatamente o que fazer.

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