O Jogador (Dostoiévski) – Resenha

Após a leitura de Razão e Sensibilidade, eu queria algo diferente. Eu havia há alguns anos lido Noites Brancas, de Dostoiévski, e gostado bastante, assim fui impulsionado a comprar a edição de O Jogador da L&PM, que estava na promoção, com tradução de Roberto Gomes. Foi esse livro que comecei, mas não o que terminei. Um dos problemas presentes no livro de Austen reapareceu nesse, porém amplificado à potência máxima.

Título: O Jogador
Autor: Dostoiévski
Tradutor: Rubens Figueiredo
Editora: Penguin Companhia
Páginas: 232
Sinopse: Impressionante retrato psicológico do vício destrutivo do jogo, compulsão que o próprio Dostoiévski conhecia intimamente, O jogador retrata com perfeição a busca incessante por uma lógica que norteie o acaso e a necessidade de controle que acometem todo jogador inveterado.
Numa estação de águas na sugestiva cidade alemã de Roletemburgo, Aleksei Ivánovitch, jovem professor de origens humildes, vivencia a emoção do jogo e o infortúnio amoroso enquanto tenta entender as confabulações que definirão o seu destino e o de seus próximos.
Num ambiente em que fortunas se dilapidam e o futuro se decide ao sabor da sorte, a tentação do risco e a necessidade imperiosa de experimentar o abismo são o motor deste que continua sendo um dos romances mais perturbadores que o século XIX viu nascer.

TRAMA

O início do romance deve se enquadrar no estilo in media res, isto é, somos jogados no meio da ação logo de início. O narrador-personagem acaba de chegar à cidade em que a maior parte da história se passará e somos introduzidos a uma grande gama de personagens. Terminei o livro há alguns minutos e resolvi reler um pouco do primeiro capítulo, ali vi três nomes que nunca mais apareceram na história: Maria, Nicha e Nadia. Os dois últimos são filhos do general que emprega o protagonista, são apenas comentados como “os filhos” daí em diante, isso quando aparecem; a primeira, não faço ideia. Quem diabos é essa pessoa? Quando ela sumiu? Por que ela sumiu? Por que foi o primeiro nome de personagem revelado no romance, se era tão inconsequente? Do mesmo modo, o segundo nome, Mézentsov, nem mesmo aparece na Wikipédia.

Acredito que as melhores interações de personagens, nesse início excruciante, se dê entre Polina/Paulina, a enteada do general, e o narrador. Os outros, francamente, não me interessavam o suficiente. Acredito que uma introdução gradual seria mais proveitosa para o romance, no lugar de mostrá-los todos logo no início. Além de compreendermos melhor a relação entre eles e o protagonista (por um tempo, estava pensando que ele era um soldado, visto que trabalhava para um general), a leitura seria mais fácil. Impossível dizer que a intenção era, justamente, causar uma leitura difícil, pois foi muito prazerosa em outros momentos.

Embora eu estivesse apenas “sobrevivendo” o início do livro, sua metade foi muito mais agradável, com o aparecimento de uma nova personagem que até então apenas havia sido mencionada. Trata-se de um alívio cômico, mas é uma personalidade mais interessante do que o resto do elenco. Ela prende mais a atenção do leitor que os outros personagens, incluindo o protagonista, embora a interação dele com ela também seja agradável de ler. Se o livro estiver sendo desagradável para o leitor, aconselho-o a, pelo menos, esperar pelo capítulo IX, no qual essa pessoa misteriosa aparecerá na narrativa. Todavia, também há a questão de ler a melhor edição do livro; do contrário, talvez nem mesmo ela será capaz de salvar a história.

TRADUÇÕES

Apenas em meados da página 60 lembrei-me de que a tradução teria de ser feita do russo, logo, era possível haver melhores. Desgostei bastante da tradução da L&PM no quesito narrativo: se estamos falando de Dostoiévski, ele não deve ter escrito mal, a tradução simplesmente não deve ter conseguido exprimi-lo bem. Assim, fui em busca de outras.

Sou incapaz de dizer se a tradução de Roberto Gomes, da L&PM, traduziu Dostoiévski do original russo. Uma nota de rodapé na página 7 é o melhor indício de que sim, porém continuo duvidoso. Quando se trata de inglês, ninguém espera uma confirmação, mas, ao se tratar de línguas menos populares, acredito que deveria ser obrigatório. A tradução do original não é o padrão, como indica uma outra obra de Dostoiévski, traduzida do francês.

Embora tenha começado a ler a versão pocket de O Jogador, a partir do capítulo VIII comecei a leitura pelo Kindle, com a tradução de Rubens Figueiredo (na folha de rosto: “tradução do russo”), edição da Penguin Companhia. Recomendo-a até mesmo sobre a da Editora 34, pelo menos em questão de fluidez narrativa, porém apenas comparei alguns trechos entre ambas, para ver qual fraseado me agradaria mais.

Gostaria de reler o início com a tradução de Rubens Figueiredo, e de fato li brevemente, mas acho melhor pôr esse livro para trás e partir para o próximo. Assim, não consigo fazer uma comparação absoluta entre a fluidez narrativa das duas edições que li – não sei se ainda me sentiria fatigado nas mesmas partes –, mas mantenho firme minha recomendação da Penguin. O valor entre as duas não é tão diferente para que a pior versão seja escolhida no lugar da outra.

Dito isso, sabendo que ainda quero ler Crime e Castigo, já sei quem será seu tradutor. Fiquei surpreso ao ver que Figueiredo também traduziu A Trilogia de Nova York, de Paul Auster, livro no qual estou de olho há algum tempo.

DINHEIRO

Em Jane Austen, tive alguns problemas para entender os valores discutidos pelos personagens, mas o dinheiro não era um tema tão central no livro, ele era focado nas personagens e nas relações amorosas. Em Dostoiévski, o lucro e a perda são a razão de ser do romance: ele existe porque o jogo existe.

Para complicar as coisas, não se trata apenas de uma moeda qualquer, pois, nesse caso, poderíamos simplesmente pesquisar seu valor no Google, mas há meia dezena de moedas diferentes. Fredericos de ouro, rublos, florins italianos, florins austríacos, táleres, francos e não duvido haver alguma outra cujo nome me foge no momento.

Enquanto consegui pesquisar quanto valem rublos e francos, o Google não me ajudou com os outros. Assim, durante alguns trechos, era impossível saber o que estava acontecendo. Ainda dava para discernir se ganhavam ou perdiam, mas o peso do ganho e da perda não eram sentidos, o que, acredito, atrapalhou a leitura de modo muito maior do que em Jane Austen, assim como não causava o efeito, acredito, pretendido pelo autor.

CONCLUSÃO

Leiam a versão da Penguin, com a tradução de Rubens Figueiredo.

Não acredito que O Jogador seja um excelente livro, mas não me foi detestável apenas por conta da presença daquela personagem misteriosa sobre a qual comentei. Entretanto, não encontrei aqui o mesmo autor que vi em Noites Brancas (cujo tradutor não consta na página da Amazon!). Se esse fosse o primeiro romance de Dostoiévski que lia, não teria a mesma vontade de ler o próximo. Por isso, dou-lhe o número de estrelas que dou para todos livros que sinto “não posso realmente dizer que foi mal escrito, mas não foi grande coisa”.

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Luiza
Luiza
06/06/2020 00:52

Muito interessante a resenha, já que ela traz um outro ponto de vista por parte do leitor e partilha de ideias que se constroem.