O maravilhoso em “O Centauro no Jardim”, de Moacyr Scliar

Pego emprestado, para este texto, a definição de estranho, fantástico e maravilhoso concebida por Todorov (2014). Para ele, a literatura fantástica, majoritariamente escrita em primeira pessoa, existe na incerteza entre o real e o fantasioso. Eventos “mágicos” que no desenrolar da história são explicados de modo natural, isto é, há uma desmistificação do mágico, fazem parte do “estranho”. Aqueles que não possuem conexão com a realidade e cuja presença sobrenatural difama a ciência são do “maravilhoso”. A literatura que não explana a ambiguidade real/imaginária pertence, então, ao gênero fantástico propriamente dito.

Parece-me de extrema importância a definição desses termos, pois é neles que me fio para escrever e, de certo modo, refutar o que se tem escrito a respeito da obra O Centauro no Jardim, de Moacyr Scliar. Nessa, um centauro nasce numa família de judeus russos que imigraram para o Brasil. A partir dessa premissa, a história se desenrola com tentativas de esconder o narrador-personagem Guedali do mundo exterior, a fuga desse para um circo, o encontro com uma outra centaura por quem se apaixona, as cirurgias para a remoção de suas partes equinas e suas consequências na vida do casal.

É de mesmo modo importante ressaltar o preconceito da parte da academia com relação a obras que fogem do fantástico comum. As chamadas “literaturas de gênero” custam a ser valorizadas como uma literatura verdadeira. Dutra (2018), embora tratando apenas sobre a ficção científica, já a classifica como um gênero invisível. Fischer (2007, p. 16) apud Dutra (2018, p. 28) teoriza que a literatura brasileira está marcada por “uma vontade de realidade”. É preciso ressaltar que o fantástico puro, ambíguo, está presente na literatura através de autores como Lygia Fagundes Telles, mas é justamente esse gênero que se caracteriza por sua ambiguidade. Acredito ser possível dizer que o cânone brasileiro repele tudo aquilo que se firma no maravilhoso. Com isso em mente, precisamos averiguar o que dizem os teóricos sobre o gênero de O Centauro no Jardim.

Cerqueira (2014) define a obra a partir de duas terminações, chama-a de “uma grande alegoria” (p. 128) e informa que ela utiliza o recurso “do realismo fantástico” (p. 184). Assunção (2013, p. 4) enquadra o romance no gênero fantástico: “Sob um pano de fundo histórico, o fantástico, presente na narrativa sob a forma de mitos e metáforas, aponta para diversos significados e abre um amplo leque de interpretações da obra literária.”

Compreendo a ambiguidade que o texto demonstra no seu último capítulo. Tita, mulher de Guedali, reconta toda a história do livro para uma desconhecida num restaurante, porém substitui os elementos fantasiosos por uma explicação plausível – entra, aí, a questão do “estranho” no “maravilhoso”; é em decorrência desse capítulo que o livro pode ser interpretado como fantástico. Guedali, agora já um homem completo e com seu passado equino tão atrás de si, até mesmo pergunta-se se o que fala sua mulher é a verdade. Freitas (2012) também percebe nessa cena o maravilhoso posto em cheque e então reafirmado por Guedali, porém assim criando o elemento ambíguo:

Todo o entrecho é então resumido, retirando-se da narrativa o estranhamento que percorria todo o livro. Entretanto, esse retroceder do fantástico, que parecia reduzir todo o romance a um episódio clínico, a uma fantasia compensatória, readquire sua força imaginária no momento em que Guedali, ouvindo a história, informa ao leitor que aquela versão de Tita constitui apenas uma estratégia de integração, um mecanismo pelo qual Tita quer convencer a si mesma e a Guedali de que os dois nunca foram centauros. O estatuto da dúvida está novamente instaurado. (FREITAS, 2012, p. 9)

A questão alegórica afirmada por Cerqueira é evidente logo ao início da história. Guedali é o filho de um casal russo, mas nasce no Brasil, após a imigração, sua parte humana representando a civilização que a família conhecia e a equina, a vida no campo, junto aos animais. É uma possibilidade tentadora, embora para mim desconexa em relação aos outros seres mitológicos presentes na narrativa: há ainda dois centauros que não apresentam a mesma dualidade, assim como uma esfinge, uma mulher metade leão nascida de uma leoa. Acredito que, se Guedali apresentava essa dualidade e sua parte centaura a fazia evidente, o mesmo deveria acontecer com os outros.

Há, então, textos que classifiquem O Centauro no Jardim como uma alegoria, um realismo fantástico e ainda fantástico puro, porém é também preciso ressaltar textos que ignoram seu aspecto não-realista, como o faz Melo (2010). Apesar de falar em centauros, a autora ignora seu aspecto tanto maravilhoso, quanto fantástico. É válido mencionar que nenhum dos exemplos consultados tratam sobre o elemento fantástico ou maravilhoso do livro. De fato, sua grande maioria foca no seu aspecto como uma obra de importância judaica. Ainda assim, todos, à parte de Melo, mencionam seu gênero, ou tentaram enquadrá-lo em um, apesar da complexidade da tarefa. Como já diz Aguiar, “Trata-se de uma novela? Um romance? Diário? Confissões? Um mito? Ou uma narrativa gaúcha e judaica? É tudo.” (AGUIAR, 2017, p. 52).

Neste texto, escolho explicitamente ignorar o aspecto fantástico que o relato de Tita traz para a narrativa, por supor que muitos dos teóricos consultados não o levaram em consideração ao classificar O Centauro no Jardim como uma obra fantástica. Quanto ao realismo fantástico, ou mágico, ele se caracteriza pela “interferência de acontecimentos fantásticos e impossíveis em uma narrativa realista” (LODGE, 2011, p. 122). O romance de Scliar possui muito de realista, mas não podemos chamá-lo, de modo algum, de uma narrativa realista; ele é, antes disso, uma alegoria, como diz Cerqueira (2014).

Assim sendo, O Centauro no Jardim pode ser chamado de literatura fantástica por conta da sua narração em primeira pessoa – um narrador não confiável? – e do relato final de Tita. Porém as dadas circunstâncias podem fazer o leitor acreditar que Tita apenas fala de tal modo pela vontade de esquecer sua vida anterior; para ela, aquela é a verdade. Em relação à primeira pessoa, obras do gênero estão muito fixas no modelo clássico para que possamos utilizá-lo como uma brecha para não chamá-lo do que merece ser chamado: uma fantasia. Trata-se de uma fantasia com pés na realidade, mas não podemos cair no erro de nomeá-la realismo mágico.

Concluindo, a literatura maravilhosa é tão rara no cânone acadêmico brasileiro que devemos abraçar toda e qualquer obra que apresente seus elementos, que possam assim ser classificadas. Especialmente para os amantes do gênero, é preciso sempre estar atentos às falsas classificações dadas a obras do tipo na intenção de dá-las mais respeito. A fantasia, o maravilhoso, dependendo do seu autor, pode “ser” tão literatura quanto o é o fantástico e o realismo mágico. Atrevo-me a dizer, a fantasia pode ser tão bem escrita que surpassaria mesmo o realismo louvado pela academia.

AGUIAR, Thaís Rios de. Narrativa da diáspora judaica: uma análise de O centauro no jardim, de Moacyr Scliar. Disponível em: <https://sucupira.capes.gov.br/sucupira/public/consultas/coleta/trabalhoConclusao/viewTrabalhoConclusao.jsf?popup=true&id_trabalho=5064071>. Acesso em 25 de maio de 2018.

AMARAL, Lincoln. A ficção de Moacyr Scliar entre o passado e o futuro. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/article/view/11209>. Acesso em 25 de maio de 2018.

ASSUNÇÃO, Sandra. A viagem identitária em O centauro no jardim de Moacyr Scliar. Disponível em: <http://www.hispanistes.org/images/PDF/HispanismeS/Hispanismes_1/H1Assuncao_Sandra.pdf>. Acesso em 25 de maio de 2018.

CERQUEIRA, Patricia C. B. F. F. Alteridade e (re)construção identitária em quatro romances de Moacyr Scliar: o centauro no jardim; na noite do ventre, o diamante; os deuses de raquel e a estranha nação de rafael mendes. Disponível em: <www.theses.fr/2014REN20058.pdf>. Acesso em 25 de maio de 2018.

DUTRA, Daniel Iturvides. Ficção científica brasileira: um gênero invisível. Revista Fantástika 451, v. 1, n. 1, p. 19-33, 2018. Disponível em: <https://fantastika451.wordpress.com/revista/edicao-1-verao-2018/>. Acesso em 13 de maio de 2018.

FREITAS, Marcus Vinicius de. A leveza do centauro. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/article/view/4847>. Acesso em 25 de maio de 2018.

LODGE, David. A Arte da Ficção. Tradução de Guilherme da Silva Braga. Porto Alegre: L&PM, 2011.

NASCIMENTO, Lyslei. Da circuncisão de um centauro. Disponível em: <http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/maaravi/article/view/3074>. Acesso em 25 de maio de 2018.

SCLIAR, Moacyr. O Centauro no Jardim. 10 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. 4 ed. Tradução de Maria Clara Correo Castello. São Paulo: Perspectiva, 2014. (Debates; 98).

Inscrever-se
Notificações
guest
Não será publicado
0 Comentários
Feedbacks de trechos
Ver todos os comentários